...morreu, mas só morreu a matéria porque tudo o resto que é bastente mais do que isso, continuará vivendo sempre que alguém a cante ou até mesmo muito antes disso. Canta Becaud que quando morre o poeta, o mundo inteiro chora. Todavia só é possível chorar a parte física porque a poesia não morre e ela mesmo afirmou:Eu sou a minha poesia!
Caminho para casa num lusco-fusco quase noite, sob um céu azulado quase cinzento, por ruas estreitas quase sem gente. No ar ainda esvoaçam andorinhas procurando os insectos que, libertos dos seus casulos, se atrevem inocentemente a procurar os primeiros candeeiros acesos no crespúculo da Primavera/Verão. O céu vai escurecendo gradualmente e eu mantendo o ritmo lento da caminhada vou-me chegando ao aconchego dum ninho, algo exíguo, mas próprio para o meu tamanho. Não gosto da noite. Não gosto das sombras que ondulam pelas paredes na direcção contrária das luzes que correm na frente dos carros que passam. Não gosto das noites sem lua. Não gosto duma rua escura. Não gosto do que não vejo, do que não sinto nem desejo. Mas amo o silêncio no campo, dos anoiteceres de verão quando o tempo está morno e a lua ainda vem alta e os pássaros emudecendo pouco a pouco no abrigo das árvores que os acolhem, aguardam um novo dia. De súbito passa um morcego; é para ele a melhor hora do dia para caçar os insectos que o seu radar vigia. Chego a casa, entro e sou recebido pelo parceiro de sempre, o só, a minha companhia de muitos momentos, os bons, os maus e os outros. Se eu gostava de ter outra companhia que companhia me fizesse? Sim! Mas esta tem-me sido fiel por tantos anos, não quero nem posso perdê-la. Então, como disse ali acima, chego a casa entro e carrego no interruptor. E nada! Acciono o sacana do interruptor várias vezes, acima e abaixo, e nada. Interrogo-me: que raio se passa? No mesmo momento iluminou-se-me a mente: (frnhg*ss), fiquei sem luz!.
Olhando o teu vai-vem numa teimosia constante para chegares à praia em sussessivas ondas de vontade que ora avançam, ora recuam, enrolando-se mansamente nas areias ou insurgindo-se raivoso contra os rochedos, lembras-me as paixões vividas com maiores ou menores intensidades e também os amores que chegaram e partiram, uns em suaves balanços de ternura e outros em revoltas agrestes porque acabaram. Olhando-te, sinto-me como uma parte de ti, sinto que vou e volto numa continuada constância de sentimentos e de desejos concretizados porém nunca satisfeitos.
Porque o meu horizonte é mais, muito mais, para além do teu.
Despi-me lentamente e deitei-me tentando não te perturbar.
O maldito colchão não colaborou; todas as molas “gritaram” num doing-doing simultâneo anunciando a minha chegada.
Mas ainda assim tu não acordaste; o teu respirar manteve-se calmo e cadenciado.
Já completamente deitado e com a cabeça sobre a almofada, enchi os pulmões ao máximo e expirei lentamente tentando libertar o stress e a ansiedade do deitar sem te acordar.
Movimentei-me para junto de ti, pondo sobre o teu corpo o meu braço esquerdo assim como que num meio abraço, de modo a que ficasses sentada em mim.
O teu perfume, aquele perfume de que nunca sei o nome, envolveu-me tal como odor dos teus cabelos descansando na tua almofada.
Senti-te, mais do que ouvi, gemer; um gemido doce, terno, carinhoso, e num movimento lento rodaste o corpo, voltaste-te para mim retribuindo aquele abraço e antes de descansares a cabeça no meu ombro beijaste-me nos lábios, num beijo que nem foi verdadeiramente beijo; foi um arremedo de beijo, daqueles que se dão quando o sono é maior que a nossa vontade. Mas ainda assim um beijo; um beijo com sabor a ti.
Dormimos abraçados pelo resto da noite.
Acordei com ela a chamar-me:
-Zé..., Zé...
-hum...
-Zé..., Zé!!
-Hum?
-Acorda!, vamos jantar!
-Ahn??
-Vá lá..., adormeceste no sofá; levanta-te de uma vez; o jantar está na mesa!
Estamos frente a frente sem nada dizermos durante horas. Tenho consciência de ter adormecido por momentos mas sempre consciente da tua presença. Reconheço a firmeza na tua postura que não se compadece com a minha fraqueza, nem com as minhas indecisões. Porque tu és firme ao contrário de mim que me deixo enredar no teu inebriante beijo e que mal toca os meus lábios deixando-me saborear-te, logo me sinto como que viajando numa outra dimensão. Sabes bem que a tua cor não é para mim (nunca o foi, devo dizer), impedimento e por isso esse não é argumento; não é, ponto final! Pouco me importam os teus antecedentes, de quais são as tuas origens nem de como chegaste até ao ponto em que estás porque não sou de me prender em assuntos de realezas nem dessas coisas a que muitos outros dão relevância. O que me importa de facto é ter a certeza de que gosto de ti (e tenho) e que tu, partilhando comigo o imenso prazer de estarmos juntos, me deixes amar-te sempre. Quero acreditar que o sonhas e o desejas como eu o desejo e quero. Adoro-te. Tu sabes que te adoro!
É quando chego a casa ao início de cada noite e me deixo cair no sofá desbotado onde a espuma espreita por entre os intervalos do puído tecido esverdeado, que me recordo daqueles muitos momentos que foram só nossos e que por mais que fossem, sempre foram poucos.
Sentado, segurei os óculos pela dobradiça junto da peça frontal e, num gesto, num movimento contrário da cabeça, retirei-os para os colocar sobre a mesinha baixa onde ainda dorme o copo que na véspera me serviu e fez companhia nuns goles de irish whiskye (diferente do scotch whisky dizem eles).
Recordo-te com prazer revivendo os momentos que passámos a sós, dos quentes beijos que não tinham fim e que não desejávamos que terminassem, das mãos, as tuas e as minhas que nos percorriam e afagavam com ardor e paixão; de tudo, mas de tudo mesmo, me lembro de cada vez que chego a casa, esta casa cheia de recordações e de sentimentos, vazia é certo e todavia ocupada por muitos bons momentos de incontida felicidade.
Talvez devesse estar triste. Porém como? Não posso viver triste quando tenho na memória os carinhos, os afectos e as alegrias daquelas recordações. Não sei quando nos voltaremos a ver mas sempre que quisermosvoltaremos estar juntos.
Cada vez mais furioso lá vinha o Alfredo, cuecas numa mão e a outra mal segurando o cobertor que lhe deixava a descoberto meia-peida, caminhando com um ténis bem calçado e com o outro só apoiado sobre o calcanhar, procurando papel para se limpar e limpar o ténis. Acabou por esfregar a sola nas ervas para “tirar a maior” e no tronco de um pinheiro tentou raspar os laterais dos ténis; não só não limpou nada de jeito como acumulou alguma resina. Em completo desespero descalçou o ténis e arremeçou-o para longe, ficando com a mão suja de resina e trampa, e para não ficar por aí calcou com o pé descalço a maldita pinha que já lhe acertara na careca. Foi o fim! Desatou aos berros e às voltas sobre um só pé, ao mesmo tempo que agarrava o pé nu “apinhoado”, não levando muito tempo para novamente se estatelar em pleno ervado, falhando por pouco um calhau mas acertando em cheio na raiz saliente do pinheiro! Ouviu-se um plock e... apagou-se!! Esparramado junto do pinheiro e meio desmaiado (porque se passou completamente) balbuciava sons sem nexo e ria-se para toda a gente com uma expressão de completo idiota.
-À chegada dos bombeiros abraçou-os e beijou-os, continuando com aquele sorriso aparvalhado estampado no rosto, entrou na ambulância e lá foi a caminho do hospital, aos gritos: -Oh Dores, oh Dores... 'tô-ta ver toda às cores.
-E ria-se, e ria-se, e ria-se apalermadamente. E depois a D. Dores:
-Raios partam os Pick Nicks. Quem os inventou, inventou uma boa mer... oh Toninho anda cá ajudar a mãe...
-Nãvô!
-Tu não m'irrites Toninho, levas um tabéfe que tu vais ver... ANDA CÁ! JÁ!
-já não se pode brincar nem nada...
-Não resmungues e trabalha. E depressa! Só quero é chegar a casa... vamos embora!