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UM AZAR DO CARAÇAS.

por Kok, em 13.02.14

Baterem à porta quando eu estava no banho. Vou abrir, não vou...

Estive mesmo para não ir pois não me deu jeito nenhum, mas dada a insistência lá me resolvi fechar as águas, a quente e a fria, enrolar à cintura uma toalha e mesmo descalço arriscando um escorreganço nos mosaicos, ir ver quem era e o que queria tão cedo na manhã.

Ainda a porta não estava bem aberta, o que me impediu de ver quem era, e apanhei com um balázio mesmo no meio da testa que me privou de tudo, nomeadamente da existência o que também não me deu jeito nenhum atendendo a que tinha duas reuniões marcadas mais um almoço com um fornecedor antes de iniciar as férias marcadas e pagas com antecedência para aproveitar a campanha lacoste low cost da agência de viagens onde trabalha a Vanessa, um arranjinho que o meu vizinho que é gerente dum banco e tem um apartamento cá no prédio, tem fora do casamento.

Para além do susto que apanhei, pois um tiro é um tiro e faz um cagaçal do caraças, é claro fiquei chateado. Evidentemente!

Uma pessoa faz planos, tem tudo organizado e pago, com o bilhete levantado de véspera para evitar esquecimentos e atrasos, e afinal não serve de nada porque ali estava eu esparramado no lajedo, com a tampa esburacada e meio levantada deixando à mostra parte da mioleira que me foi útil algumas vezes (e outras nem tanto), e cuja serventia é agora zero.

E mais, como foi a primeira vez que me mataram não sabia como é que se cai quando nos dão um tiro e por isso cai à balda, ficando com uma perna dobrada debaixo do tronco e a outra esticada apontando para a parede do hall com o pé metido no balde dos chapéus-de-chuva que eu, ao cair e dada a minha inexperiência, derrubei com a cabeça.

Ouviam-se ruídos de portas a bater e dos passos de pessoas correndo escadas abaixo, tudo aos gritos de:

-ACUDAM!

-SOCORRO!

-CHAMEM A POLÍCIA!

-O QUE É QUE SE PASSA?

-Aiiiiiii F#*@-SE, TORCI UM PÉ! Aiiiiiiii Aiiiiiiiiii Aiiiiiiiiii Aiiiiiiiiii

-Calma calma, isto não é nada; até parece que morreu alguém.

Gradualmente o sossego. Não sei quanto tempo passou até nas escadas do prédio silencioso e silenciado começar a ouvir um caminhar vagaroso, parecendo que quem lá vinha viesse com receio mas sem saber de quê. Demorou um bocado, certamente porque foi vendo os andares anteriores inferiores, até que parando frente à minha porta, abriu-a sem pressas e viu-me!

Era um polícia; via-se bem que era um novato, e ao ver-me assim caído e com tudo à mostra, o cérebro e o resto já que a toalha se soltara, embranqueceu, recuou e  quase desmaiando ainda teve forças para comunicar com a esquadra, para me virem buscar. Será que vou ser preso?, pensei eu. Se calhar um gajo para levar um tiro tem que ter uma licença para estar dentro da legalidade. E o facto de um gajo não saber quando é que isso acontece poderá ser uma atenuante? E se for assim do tipo das cartas de condução que têm prazo e depois é preciso renovar?

Se for assim tou lixado.

Demoraram algumas horas até que apareceram uns gajos que nunca tinha visto e um deles, médico pelo que percebi, atestou que eu estava morto! Olha a novidade, pensei eu; se tivesses telefonado eu podia ter-te poupado o trabalho.

Ataram-me, embrulharam-me e enquanto me carregavam escadas abaixo ouvi o meu vizinho gerente do banco a falar com a Vanessa dizendo-lhe baixinho:

-Chiça Vanessa, já viste a nossa sorte?

-Podes crer querido, podes crer! Se não fosse todo este barulho ainda estávamos na caminha…

-Ainda bem que o teu marido se enganou no andar…

Então eu morri por engano?

Quer dizer: eles andam enrolados e eu é que “pago”? e sem uso-fruto!!!

Admite-se que um gajo saiba que a mulher anda a “enfeitá-lo” e não saiba a morada correcta do amante da mulher! Repito: não se admite uma coisa destas.

Tive mesmo um azar do caraças!

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publicado às 21:15


10 comentários

De golimix a 14.02.2014 às 20:49

Amei o texto! Claro, né?

É do caraças morrer ao engano e nada se poder fazer. Resta-lhe pregar-lhes umas partidas enquanto alminha penada.



Ps- Vou espiar como colocaste a ligação lá no Cri_Activos

De Kok a 15.02.2014 às 15:24

Obrg. Gix

Suponho que morrer pela manhã e com um tiro no meio da testa seja desagradável.
Ainda pior sendo por engano.

Bejix

De Joana a 17.02.2014 às 13:00

Azar dos grandes. Bolas é lixado, quer dizer imagino que seja. Antes estivesses escorregado no banho.
Se puderes vinga-te. Eu faria isso.
Já agora como é que é a "vida" depois da morte?

De Kok a 20.02.2014 às 12:25

É tudo muito escuro

De amaria a 18.02.2014 às 12:51

Não há condiçoes pá..diria eu..!!!


:) beijinhos amigo..

boa disposiçao para o resto do dia..!

Precisa-se ...

De Kok a 20.02.2014 às 12:30

De facto...
Coisas "mal conmbinadas", é o que é...

De DyDa/Flordeliz a 26.02.2014 às 02:33

Meu caro,
Não sei a que velocidade escreves.
Mas o tipo de escrita faz-me ler sem respirar, sinto até que me falta o ar.
Explico: sabes quando a gente vai apressada e vai descendo as escadas e vai aumentando a velocidade, isto, sem razão aparente, mas também sem conseguir diminuir...
Fazes-me passar os limites. Um dia ainda tropeço num parágrafo, malhando mesmo até ao fim, tocando na ponta das frases, rebolando entre letras até por fim chegar ao ponto final. O que seria um tombo e peras. Claro, não há perigo de me encontrarem de toalha, não tenho o policia à porta e no meu prédio só há três habitantes, que dormem entre lençóis. Teria de esperar o amanhecer para descobrirem a anormal que ficou aqui até estas horas para te ler.
Mas foi com muito prazer e sempre a pensar, o KOK não tem as luas todas.
-E ainda bem, porque vou adormecer com um sorriso de cúmplice.

Beijinho


De Kok a 28.02.2014 às 15:54

Podes deduzir que com a velocidade em que publico "coisas" a minha escrita é uma escrita em subidas: devagar devagarinho!
Mas porque não quero que tu te "esbardalhes" degrau a degrau nas sílabas das minhas ideias passadas à escrita terei o cuidado de em cada uma delas inclui um corrimão para que te possas apoiar em caso de necessidade!
E quanto às o que posso dizer? Cada um tem as que merece!

Um beijo com sorrisos fazendo-te companhia!

De Cris a 27.02.2014 às 00:09

Moral da história: nunca abrir a porta quando se está no banho! :p Muito bom e, claro, com muitos sorrisos à mistura. Lembrei-me daquele anúncio da mulher que estraga o carro errado, porque tem dois iguais juntos... eheh

De Kok a 28.02.2014 às 15:59

Olá Cris! Bem aparecida!
Pois é! Ainda que nem sempre aconteça o tomar banho é perigoso.
E abrir a porta semi nu também não ajuda nada. Pelo menos ao "heroi" da história só prejudicou por não ter usufruido da viagem já paga!

Beijos com sorrisos!

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