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NUMA MANHÃ de CHUVA

por Kok, em 02.04.14

-Sim sim, já estou na rua… Não, primeiro vou beber um café e ler o jornal… Atrasados? Mas atrasados porquê? Não é só de tarde? … Isso não me interessa; eu tenho… Ok então vai tu! Eu não vou. O gajo disse-me que a cena tinha sido alterada que só de tarde é que eu gravava. … Tábem, tábem…  adeus!

Desliguei e guardei o telemóvel. Duas passadas depois começou e vibrar dentro do bolso porque como de costume não bloqueei as teclas e ele “re-ligou-se” com ela que irritada me gritou:

-Úkékekéres agora?

-Nada! Xau!

Voltei a desligar e a desligá-lo mesmo, evitando assim que me chateassem. Porque o meu momento de beber o café e ler o jornal, à mesa da pastelaria da minha rua, é único; quase sagrado. E o cumprimentar a Idalina também tem a sua importância!

São agora quase 10 horas. O trânsito movimenta-se lento e barulhento. Andando em várias direcções, as pessoas passam aceleradas para mais um dia de trabalho, ou quem sabe para procurá-lo. A caminho da pastelaria vou observando o que à minha volta se passa e, sem surpresa, percebo que estou só no meio da muita gente. Admito até que sou transparente para quem por mim se cruza.

Não é uma sensação agradável. Nem desagradável. Aliás, nem sequer uma sensação. É uma constatação!

No passeio central da avenida suburbana onde “dormem” automóveis de variadas marcas e modelos, passeia-se um cão de raça indefinida, pintalgado de preto e amarelo, que vai cheirando todas as árvores e pneus que encontra e neles depositando algumas gotas de urina para que “quem” a seguir vier saiba que ele passou por ali. Afinal, para ele as árvores e os pneus dos carros funcionam como aquelas revistas ditas de cor-de-rosa vocacionadas para satisfazer curiosidades voyeuristas.

A pastelaria tem poucas mesas ocupadas ao contrário do balcão onde não há espaço para ninguém. Peço um café duplo, um copo de água e um folhado misto.

-Quer o folhado aquecido?

Como não tenho pressa, confirmo: Sim, por favor.

Sento-me junto da montra frigorífica onde bolos feitos de madrugada repousam nas prateleiras de vidro, exibindo um colorido de cremes e de outros tipos de peganhices para satisfação de gulosos para além de, visualmente, comporem uma qualquer mesa comemorativa numa festividade doméstica.

Encostada ao balcão ocupando o espaço do “serviço de mesas” está a D. Arménia, (uma vizinha muito larga e bastante pesada cuja simpatia é menor que a de um semáforo).

-Óh coisa, faz aí uma torrada com bastante manteiga e dá-me um galão escuro e um cruássã com recheio de chocolate.

-Sim D. Arménia, vou já fazer, responde a  coisa.

Começa a chover.

São pingos leves, dispersos, que vão progressivamente engrossando e aumentando a sua cadência até se assemelhar a um dilúvio, “expulsando ” da rua para o interior de cafés, pastelarias e outros, tudo o que é ser vivo: as pessoas e o tal cão preto e amarelo que de orelhas erguidas e o rabo entre as pernas veio deitar-se junto da mesa onde eu esperava pelo café duplo, o copo com água e o folhado misto, aquecido. Através da montra vejo passar um miúdo correndo, encharcado pela chuva, e logo depois uma mulher também encharcada apesar de empunhar um chapéu de chuva de cor vermelha mas que de pouco lhe serve; aparentemente são mais as varetas partidas do que as inteiras.

Também ela corre chamando o miúdo com voz estridente:

-Òh Francisquiiiiiinho, òh Francisquiiiiiinho, Òh Francis… deixei de a ouvir!

Momentos depois voltam a passar correndo em sentido contrário, o miúdo e a mulher, ambos mais encharcados de chuva e sem o tal chapéu de chuva vermelho.

Chega à mesa a Idalina, a empregada da pastelaria cujas generosas mamas “espreitam” parcialmente na blusa preta meio desabotoada, sem receio da chuva que cai lá fora, e que despertam o meu olhar mais do que o café duplo, o copo de água e o folhado misto aquecido e cortado ao meio, para me facilitar.

Demoro o olhar nas mamas tentando imaginar como será contemplá-las por inteiro; ela sabe por onde corre o meu pensamento. Sorri para mim, e debruçando-se –diria que sem necessidade- coloca sobre a mesa o meu pequeno almoço dizendo:

-O folhado misto está bem quentinho Sr. Peres, espero que goste. E bom proveito!

-Obrigado Idalina.

Olhando-a enquanto voltava para o balcão ondulando as roliças ancas como se fosse um poema de inspirado poeta, sabia que ela não se referiu ao café nem ao folhado misto.

-Olha lá ó coisa, este galão está muito escuro; e as torradas, demoram muito?

-Estão quase D. Arménia, responde a coisa levando o galão para clarear.

Voltando à mesa vejo o cão que, sentado e com o focinho à altura do tampo da mesa olhava ora para mim, ora para o folhado misto. Não era bem uma súplica mas…

Dispus-me a partilhar o folhado mas não tive tempo porque entraram na pastelaria ainda encharcados, o miúdo e a mulher.

O cão volta-se e corre para junto do miúdo, que o abraça.

-Mãe, mãe, olha onde é que ele estava. Eu não te disse mãe?! Eu não te disse?

A mãe, cujos cabelos pingavam ensopados de tanta chuva, não parecia ouvi-lo. Só quer voltar para casa, para um reconfortante duche bem quente. E pensa: se não fosse por ti pouco me importaria que o cão tivesse desaparecido. Estou tão farta do cão...

-Olha lá, então não vês que o galão está muito claro?! E as torradas? (não sabem fazer nada que tenha jeito; mal empregadas, resmunga a D. Arménia).

-Estão aqui D. Arménia, estão aqui, responde a coisa enquanto deita uns pingos de café no sacana do galão para que escureça sem que fique escuro. Coisa sofre…

O meu telemóvel vibra. É ela. Atendo? Não atendo?

Distraído, pressiono a tecla errada e desligo a chamada. Mas ela volta à carga.

-Estou!

-Então, desligaste-me a chamada? Onde é que estás?

-Foi sem querer; enganei-me na tecla.

-Sim, sim, pois… onde é que estás?

-Na pastelaria; estou a comer o pequeno almoço e…

-Aaaah! Já viste a Idalina?

-Já, porquê?

-Era só para saber. Agora que a viste já podes vir para os estúdios para começarmos a gravar? E despacha-te porque as cenas da tarde passaram para esta manhã.

-Então e a chuva?

-O que é que tem? Se estás com medo de te afogar pede à Idalina que te empreste as bóias. É a única maneira que tens de lhe pores as mãos!

E rindo alarvemente desligou o telefonema.

Caminho por entre as mesas para pagar no balcão o pequeno almoço e vejo a coisa recolhendo das mesas as loiças utilizadas em espasmos de risos mal contidos.

Interrogo-a com o olhar e ela responde-me com um arquear de sobrancelhas apontando com o queixo na direcção do balcão. Olhos nos olhos sorrimo-nos cumplices ocorrendo-nos ser o gesto canino um acto de  solidariedade para com a Sandra (a coisa).

Porque, junto ao balcão, o cão do Francisquinho de pata alçada mijava nas botas de cano alto da D. Arménia.

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publicado às 15:15

UM AZAR DO CARAÇAS.

por Kok, em 13.02.14

Baterem à porta quando eu estava no banho. Vou abrir, não vou...

Estive mesmo para não ir pois não me deu jeito nenhum, mas dada a insistência lá me resolvi fechar as águas, a quente e a fria, enrolar à cintura uma toalha e mesmo descalço arriscando um escorreganço nos mosaicos, ir ver quem era e o que queria tão cedo na manhã.

Ainda a porta não estava bem aberta, o que me impediu de ver quem era, e apanhei com um balázio mesmo no meio da testa que me privou de tudo, nomeadamente da existência o que também não me deu jeito nenhum atendendo a que tinha duas reuniões marcadas mais um almoço com um fornecedor antes de iniciar as férias marcadas e pagas com antecedência para aproveitar a campanha lacoste low cost da agência de viagens onde trabalha a Vanessa, um arranjinho que o meu vizinho que é gerente dum banco e tem um apartamento cá no prédio, tem fora do casamento.

Para além do susto que apanhei, pois um tiro é um tiro e faz um cagaçal do caraças, é claro fiquei chateado. Evidentemente!

Uma pessoa faz planos, tem tudo organizado e pago, com o bilhete levantado de véspera para evitar esquecimentos e atrasos, e afinal não serve de nada porque ali estava eu esparramado no lajedo, com a tampa esburacada e meio levantada deixando à mostra parte da mioleira que me foi útil algumas vezes (e outras nem tanto), e cuja serventia é agora zero.

E mais, como foi a primeira vez que me mataram não sabia como é que se cai quando nos dão um tiro e por isso cai à balda, ficando com uma perna dobrada debaixo do tronco e a outra esticada apontando para a parede do hall com o pé metido no balde dos chapéus-de-chuva que eu, ao cair e dada a minha inexperiência, derrubei com a cabeça.

Ouviam-se ruídos de portas a bater e dos passos de pessoas correndo escadas abaixo, tudo aos gritos de:

-ACUDAM!

-SOCORRO!

-CHAMEM A POLÍCIA!

-O QUE É QUE SE PASSA?

-Aiiiiiii F#*@-SE, TORCI UM PÉ! Aiiiiiiii Aiiiiiiiiii Aiiiiiiiiii Aiiiiiiiiii

-Calma calma, isto não é nada; até parece que morreu alguém.

Gradualmente o sossego. Não sei quanto tempo passou até nas escadas do prédio silencioso e silenciado começar a ouvir um caminhar vagaroso, parecendo que quem lá vinha viesse com receio mas sem saber de quê. Demorou um bocado, certamente porque foi vendo os andares anteriores inferiores, até que parando frente à minha porta, abriu-a sem pressas e viu-me!

Era um polícia; via-se bem que era um novato, e ao ver-me assim caído e com tudo à mostra, o cérebro e o resto já que a toalha se soltara, embranqueceu, recuou e  quase desmaiando ainda teve forças para comunicar com a esquadra, para me virem buscar. Será que vou ser preso?, pensei eu. Se calhar um gajo para levar um tiro tem que ter uma licença para estar dentro da legalidade. E o facto de um gajo não saber quando é que isso acontece poderá ser uma atenuante? E se for assim do tipo das cartas de condução que têm prazo e depois é preciso renovar?

Se for assim tou lixado.

Demoraram algumas horas até que apareceram uns gajos que nunca tinha visto e um deles, médico pelo que percebi, atestou que eu estava morto! Olha a novidade, pensei eu; se tivesses telefonado eu podia ter-te poupado o trabalho.

Ataram-me, embrulharam-me e enquanto me carregavam escadas abaixo ouvi o meu vizinho gerente do banco a falar com a Vanessa dizendo-lhe baixinho:

-Chiça Vanessa, já viste a nossa sorte?

-Podes crer querido, podes crer! Se não fosse todo este barulho ainda estávamos na caminha…

-Ainda bem que o teu marido se enganou no andar…

Então eu morri por engano?

Quer dizer: eles andam enrolados e eu é que “pago”? e sem uso-fruto!!!

Admite-se que um gajo saiba que a mulher anda a “enfeitá-lo” e não saiba a morada correcta do amante da mulher! Repito: não se admite uma coisa destas.

Tive mesmo um azar do caraças!

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publicado às 21:15

MUDAR?

por Kok, em 22.01.14

Se for para melhor é bom. Há quem mude e se mude para melhor. E também há quem mude só por mudar. Dizem-me que é uma questão de atitude. Pois que seja, isso é lá com eles. Hoje deu-me na bolha mudar! Arranquei o papel de parede e pintei as paredes, portas e janelas; no tecto não toco antes que me caia em cima da cabeça!

Não gosto muito é da cor mas foi uma tinta oferecida e há que aproveitar.

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publicado às 17:35

O CASACO COMPRIDO

por Kok, em 15.12.13

Já completamente vestido e pronto para sair retirou do cabide de pé posicionado à porta do quarto, um quarto enorme com a cama no centro mas encostada a uma das paredes, as duas janelas altas até quase ao tecto, à esquerda e a porta do WC privado, à direita, o casaco comprido, de cor azul escura, e vestiu-o abotoando vagarosamente cada botão.

Colocou o chapéu na cabeça, um chapéu de copa arredondada e de abas não muito largas, pegou na bengala de madeira avermelhada e punho de prata, e caminhou para a saída.

Abriu a porta de acesso ao patamar, saiu e, voltando-se, fechou-a com uma violência controlada informando assim todos os vizinhos que ele ia sair.

Como sempre desprezou o ascensor, preferindo as escadas. Descia cada degrau com lentidão colocando primeiro o calcanhar e só depois o resto do pé, numa desconcertante e invulgar forma de descer escadas, prolongando desta maneira tempo de que dispunha e do qual já não precisava.

O porteiro, ouvindo-lhe os inconfundíveis passos, apressou-se a abrir a porta da rua, uma pesada porta de vidro com enfeites retorcidos de ferro, pintada de verde e esperou.

-Bom dia senhor doutor! Como está? Passou bem a noite?

-Bom dia Salvador, respondeu-lhe o senhor doutor num quase inaudível resmungo.

Já no passeio andou três ou quatro passos e quedou-se imóvel para aproveitar o banho de sol pouco quente àquela hora da manhã onde uma brisa de resto de noite, soprava.

Decidiu descer a avenida e num firme movimento da bengala iniciou calmamente a caminhada rumo à elegante pastelaria, cuja esplanada àquela hora ainda não está totalmente composta e arrumada, mas que ele sabia terem sempre a mesinha de canto pronta para o receberem. E também igualmente prontas as tiras fritas de bacon, os dois ovos estrelados, as obrigatórias fatias de pão tostadas e o vinho branco de Colares fresco a uma agradável temperatura, portanto sem estar gelado.

Enquanto caminhava não deixava de estar atento. Demorava-se à porta da florista que meio dobrada procedia ao arranjo das flores, mostrando parte convidativa do recheio do seu decote; depois ficava olhando com algum pesar o carro topo de gama na montra do stand de automóveis, e um pouco mais abaixo perdia algum tempo (ganhando em prazer visual) ao deter-se junto do quiosque onde as formosas e (para ele) inalcançáveis cabeleireiras e manicuras do salão de beleza próximo, compravam tabaco e pastilhas e liam as revistas antes de começarem a trabalhar, e que simpaticamente lhe atiravam um “olá sôdótôr”, é hoje que nos vai visitar para arranjar as unhas?, o que lhe arrancava um leve movimento de assentimento acompanhado de um amarelado sorriso. Outros tempos e não seriam só as unhas que me arranjariam, pensava com alguma amargura.

Já na esplanada da elegante pastelaria e chegado junto da habitual mesa, procedeu ao costumado ritual: o chapéu e a bengala, ocuparam uma das quatro cadeiras de verga postas ao redor da mesa e despido o casaco comprido, dobrou-o cuidadosamente e colocou-o na mesma cadeira.

Ele sentado numa outra saboreou lentamente o pequeno-almoço, mergulhando tiras de tosta nas gemas dos ovos, juntando duas ou três garfadas de bacon e sorvendo goles de Colares entre umas e outras.

Demoradamente, para que o seu tempo se estendesse e talvez assim o restante tempo demorasse menos tempo a passar.

O movimento de pessoas aumentava gradualmente. Algumas entravam apressadamente na pastelaria e depois de um café e um queque saíam ainda mais apressadas porque o autocarro estava mesmo a passar e não queriam chegar tarde.

Outras não entravam.

Mas isso ele já sabia porque as conhecia de outras manhãs. Adivinhava-lhes os hábitos e as preferências, as que só comiam bolos secos e as que não dispensavam os cremosos, dos que babam chantilly por todos os lados. Também haviam as que preferiam os salgados: rissóis, croquetes ou os folhados mistos amornados no micro-ondas.

Conforme a manhã crescia a esplanada compunha-se com a chegada dos que, como ele, tinham tempo de sobra para gastar. Sentavam-se, recostando-se nas cadeiras e bebiam um café enquanto liam jornais, cujas notícias pareciam desagradar a todos já que todos resmungavam e reclamavam entre dentes, várias vezes em cada página.

Ele não lia jornais! Ele e os jornais eram velhos conhecidos! Mas não os lia.

Porque houve um tempo em que ele escreveu nos jornais. Mas foi há muitos anos quando as notícias eram dactilografadas e depois havia a tipografia e depois…

Ele nunca mais leu notícias. Ele nunca mais comprou jornais. Ele gostava era de estar sentado na esplanada da pastelaria, bem cedo na manhã, assistindo ao vai vem dos que todos os dias por ali passavam, e do que habitualmente por ali acontecia, percebendo uma ocasional ou mesmo definitiva ausência.

Fazia-o involuntariamente, resultado de tantos anos atento e a fazê-lo por obrigação.

Pediu um café e enquanto esperava acendeu um cigarro. Claro que sabia que não devia fumar. Claro que sabia disso e de outras coisas que fez e que não deveria ter feito. Mas viver uma vida fazendo somente o que se pode fazer é viver verdadeiramente? Até pode ser que seja, mas não é o caso dele. Sempre navegou ao sabor da sua vontade, muitas vezes na contra mão, umas vezes em águas turvas e em revoltas outras mais, remando contra marés, e nunca ao sabor das correntes.

Outros tempos, noutros caminhos e com outras gentes. Agora sobra-lhe tempo, o tempo de que tantas vezes precisou para saber mais e para mais notícias escrever.

Acabou o cigarro.

Era tempo de pagar e sair da esplanada de pastelaria. Era tempo de caminhar “fazendo” tempo para o almoço. Colocou o chapéu na cabeça e segurando firmemente na bengala saiu, levando no braço, dobrado, o casaco comprido.

Preparou-se para atravessar a avenida.

Um polícia passou correndo, perseguindo um gajo que atravessando por entre o trânsito originou um súbito chiar de pneus no asfalto acompanhado de múltiplas buzinadelas.

Ele virou-se a tempo de ver o gajo ser apanhado por uma carrinha de distribuição de carnes e o polícia safar-se à justa de ser atingido por um táxi; mas não consegui evitar um autocarro que por despiste galgou o passeio e o atropelou junto do semáforo que acabara de mudar de vermelho para verde, para os peões.

Foi uma notícia (a última) que ele não escreveu. E no entanto, morrendo, escreveu-a!

À espera ser removido, ali ficou espalmado no passeio, coberto pelo casaco comprido.

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publicado às 22:40

A CAMINHADA...

por Kok, em 20.11.13

...que não parecia ter fim!

Por cada passo que dava mais passos tinha que dar.

E tinha mesmo que os dar. E dava. E caminhava cada vez com mais vontade, mas com mais vontade de desistir a cada passo. De cada vez com menos alento mas cada vez mais decidido, um pé depois de outro, teimosamente, determinado a chegar ao fim da “malvada”  estrada onde árvores de espessas ramagens seriam uma bênção porque o sol abrasador era um tormento para qualquer viajante. Ainda assim dei por mim pisando-a. Não sabia as horas mas tinha a certeza que o meio dia “já lá ia.” Sentia os pés “em brasa” dentro de umas daquelas peúgas de algodão barato, enfiados nuns ténis de fancaria; os calções em tecido de reles imitação de caqui mantinham-me as virilhas e todo o “equipamento circundante” numa sauna permanente. A T-Shirt azul escura atada à volta da cabeça, cuja frontaria –a da t-shirt evidentemente- mostrava uma gaja desconhecida, nua, camuflada entre folhas de couve lombarda, servia-me de boné na falta de um verdadeiro boné.

Por isto o meu nada musculado tronco mostrava-se em toda a sua plenitude acima dos mencionados reles calções e até à base do meu “esbelto” pescoço.

Ao redor nem vivalma. Vacas, ovelhas ou cabras, nem uma para amostra. Nem pássaros piando se ouviam. Só o xrek xrek xrek dos meus passos sobre os grãos de terra e das minúsculas pedras arredondadas que compõem a estrada, era audível. Continuei caminhando, um passo após outro, com vontade de parar; porém desejando chegar ao fim. Ao fim desta estrada cujo fim não parecia ter fim! Por teimosia. Por vontade ainda que contrariado? Não. Por obrigação. Preferia ter continuado à sombra, deitado na cama de rede que me trouxeram do Brasil anos atrás. Porém a minha preferência nem sempre se acerta com a minha obrigação. E a minha obrigação era ter posto gasolina do depósito do carro, hoje de manhã quando fomos à praça comprar as sardinhas para o jantar. Mas não o fiz. Ponho à tarde, disse eu convicto de que a que restava dentro do depósito “ainda dava”

Não deu!

E quando me disseram que faltavam os pimentos para a salada, e também a alface frisada, e o pão e o vinho…

Eis a razão porque estou caminhando nesta estrada que não tem fim, debaixo de um sol abrasador, com um jerry-can plástico de 10 litros a caminho da próxima estação de serviço para regressar e…

Acabo por aqui pois o resto já se adivinha: terei que “palmilhar” o percurso inverso e com o jerry-can carregado!

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publicado às 16:30

A INIBIDORA

por Kok, em 11.11.13

À minha frente, sobre a secretária, lá está ela!

Parece meio adormecida ou mesmo fingindo-se desinteressada, porém eu sei que me está observando, atenta a todos os meus movimentos.

Mas eu não a olho directamente. Também não quero dar parte de fraco e por isso miro-a de viés ou, pretendendo que me pense igualmente desin-teressado, fixo o quadro pendurado por sobre a mesa mantendo-a porém dentro do meu campo visual.

Nem o estrondo de uma porta fechada com força, ou o ladrar de um cão das redondezas  lhe arranca qualquer movimento. É como se nada fosse!

Eu sei que ela está alerta, pronta e esperando que eu me movimente na sua direcção como sempre acontece.

Desta vez vou  tentar outra aproximação; viro-lhe as costas devagar (talvez ela pense que me vou embora) e, convencido que ela já não me espera, dou meia volta com rapidez e vou para ela já pronto para começar.

Qual quê!? Nada sucede, nenhuma ideia me ocorre! Aquela folha de papel, branca, poisada sobre a secretária, completamente inerte, inibe-me! Sufoca-me!

Nada consigo escrever! Amanhã voltarei a tentar.

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publicado às 01:10

NA ESPLANADA ao fim da tarde!

por Kok, em 26.10.13

É uma tarde de inverno, desagradável, com vento e chuva.

Virada para o mar num ligeiro declive, com mesas vermelhas e cadeiras plásticas da mesma cor por entre chapéus amarrados para não voarem ao sabor da ventania, vazia de gente, esta é a esplanada que ela escolheu para conversarmos.

Estranhei a ideia. Bem poderíamos conversar em casa, mas como dizer-lhe que não? Afinal as esplanadas também servem para conversarmos e fazê-lo ao ar livre não é pior nem melhor do que fazê-lo em casa; é somente diferente!

Decidi-me por uma mesa resguardada do vento e da chuva, rodeada de cadeiras de verga, confortáveis, frente a um copo por encher de uma cerveja por beber.

Esperei!

A demora dela será devida ao trânsito? Preocupado, decido ligar-lhe pelo telemóvel.

Antes de terminar a marcação dos números sinto-a chegar. Veio pelas minhas costas e,  sentando-se à minha frente, deixou sair um suspiro meio de cansaço meio de alívio por ter chegado, por ter onde descansar.

Olhá-mo-nos numa mistura de sentimentos e perguntas: estás bem?, o que se passa?, estás cansada?, esperaste muito tempo?,

Nada que não fossem as habituais interrogações de quando nos encontrávamos depois de um dia de trabalho.

Olhei-a nos olhos, inquieto, como que perguntando-lhe pelo “meu beijo”.

Olhou para longe, e ignorando-me mas sem me ignorar verdadeiramente disse-me perguntando:

-Já estás à espera à muito tempo?

É estranho, pensei eu; se combinou para uma hora antes e só agora chega é natural que eu esteja esperando à pelo menos uma hora.

-Estou!, respondi por impulso sem saber exactamente o que dizer.

Ignorando a minha resposta continuou falando num tom neutro, impessoal, como se eu não estivesse presente, dizendo que tínhamos que resolver a nossa situação, que não podíamos continuar assim, que estava grávida, que lhe tinha sido proposta uma nova e interessante oportunidade na empresa, nos escritórios de Nova Iorque onde o seu futuro está e onde já está também o Arthur (um gajo de quem eu nunca gostei), que é o pai da criança e que com ela prometeu casar-se.

Subitamente fiquei surdo!

Olhava-a, via-lhe os lábios mexerem-se mas nenhum som chegava até mim. Era como se eu estivesse planando sobre mim e sobre ela, vendo-nos numa espécie de sonho irreal, completamente isolados do mundo.

-… então?, não dizes nada??

Acordei não fazendo ideia do quanto e do quê mais, ela falou!

Olhava-me à espera do que eu dissesse, seguramente para concordar com as suas expectativas, quase numa súplica de: diz que sim!

-Estás grávida?

Foi tudo o que consegui articular porque foi o que mais impacto teve em mim todo aquele arrevesado de informação debitada à mesa da esplanada.

-Estou, mas fica descansado que não és tu o pai!

Fico descansado? A minha vontade foi levantar-me e desaparecer.

Mas como?

Como desaparecer de uma vida construída a dois e durante quase cinco anos?

Como  desaparecer assim, ignorando tudo o que se passou, tudo o que se viveu?

A vida não é exactamente um texto nem se resume a uma frase, que se eliminam, se  alteram ou se resolvem com a simplicidade de um click na tecla “delete”.

Levantei-me e, de punho fechado, agredi a mesa com toda a força do meu ser; o copo vazio juntamente com e a cerveja ainda cheia, saltaram num reflexo violento; ela espalhando espuma pelos ares e ele estilhaçando-se logo que embateu nas placas de   mármores de refugo que compunham o chão da esplanada.

-Tem calma, tem calma, dizia-me ela repetidamente...

Virei-lhe as costas e em duas passadas saí de cena enquanto num zoom gradual a cara dela, realçando os seus olhos azuis, aparece no close final.

-Corta! Está feito e perfeito!, gritou pelo megafone o realizador da novela que continuou debitando instruções: amanhã começamos às oito da manhã em estúdio.

Ok até amanhã!, respondi enquanto acendia um cigarro a caminho da desmaquilhação.

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publicado às 15:30

o AMOR, a OLYMPIA e a CADEIRA GIRATÓRIA

por Kok, em 07.07.13

 

Foram muitos os anos que vivi com a certeza de que sempre que chegava a casa tu estavas sentado naquela cadeira giratória, toda ela de cor preta e já bastante velha, martelando nas teclas gastas e descoloridas da Olympia, a máquina de escrever bastante antiga que sempre te acompanhou; aliás, ela vivia contigo há tanto tempo que mais parecia fazer parte de ti, como se fosse uma extensão tua, um terceiro membro superior.

Desde que te conheci que conheço a Olympia. Foi nela que “te disse” pela primeira vez: amo-te! E ainda me lembro de me teres dito, meio irritado, que não se escreve à máquina sem primeiro colocar o papel  para não marcar o rolo de borracha. Eu lá sabia disso? Aprendi e não voltei a fazê-lo; mas repeti vezes sem conta: amo-te. Mesmo quando estavas concentrado na escrita e nem te apercebias da minha presença. Às vezes chegava-me junto a ti e abraçava-te pelas costas abraçando também e inevitavelmente a cadeira giratória. Ralhavas-me, porque perdias a concentração e “o fio à meada” fazendo com que se alterassem as tuas ideias e os enredos tomassem outro rumo e não o que tinhas idealizado. Culpaste-me até por dois ou três livros não terem sido acabados.

São aquelas folhas de papel amarelecido que ainda estão guardadas na última gaveta da tua mesa de cabeceira.

Vês? Continua a ser “a tua mesa de cabeceira”.

Recordo-me de cada livro que terminaste, exactamente quando os terminaste! Era quando puxavas a última folha fazendo correr o “tal” rolo de borracha com um ruído característico de: rrrrrr, inconfundível. Muito diferente do mesmo rrrrrr que se ouvia quando simplesmente acabavas uma folha para iniciar uma outra, continuando a história. Este rrrrrr era monótono, mas naquele notava-se alegria e simultaneamente alívio por teres chegado ao fim.

Eu, contente, corria para o escritório para te felicitar e tu, recostado na cadeira giratória olhando um infinito que só tu vias, acolhias-me por momentos no teu colo recebendo distraidamente carinhos e afagos, sem te ocorrer que eu gostaria que retribuísses.

Eu sabia! Nunca foste dado ao que apelidavas de lamechices e, conforme o tempo passava e a idade ia avançando, criticavas em crescendo os simples gestos afectivos que os casais trocavam em público. Isso também se reflecte nos teus livros onde o romance é ignorado, quase ostensivamente.

Mas eu também sabia que tu fora do escritório eras outra pessoa. No intervalo entre livros dávamos longos passeios pelos parques da cidade e pelos caminhos à beira mar, almoçávamos num daqueles restaurantes de praia e frequentávamos as esplanadas à sombra das árvores que cresciam à beira rio, beberricando chá frio de menta nos dias de maior calor.

Fizemos viagens maravilhosas e jamais esquecerei os dias passados em Singapura, a passagem pela Índia e as noites de Kuala Lumpur onde fumámos umas coisas e inalámos outras, e onde nos amámos loucamente. Quase que perdíamos o avião para o voo de regresso, lembras-te? Que disparate. Claro que te lembras!

Sei que me amavas, que me amaste de uma maneira sóbria e sem grandes gestos. Talvez por isso eu te amei como te amei, exuberantemente, gritando, como daquela vez no alto da falésia em Sagres fazendo com que um grupo de turistas se precipitasse para mim pensando que me querias empurrar para o mar!

Assustaste-te, ralhaste-me, mas depois…

Depois aproveitaste-te do episódio para escreveres aquele romance maravilhoso “Ao sabor do Vento”.

Amei-te com um amor intenso, enorme; amei-te por ti e por mim!

Que digo eu! Como se fosse possível deixar de te amar. Teria que te esquecer. E não há maneira de isso acontecer porque ainda não morri.

Agora chego a casa e tu não estás. A cadeira giratória ali está, vazia, mantendo à vista a velha t-shirt azul escura que, como tu dizias, te protegiam as costas para não se “pegarem” ao tecido da cadeira, quando escrevias de tronco nu. E tantas foram as vezes…

Agora chego a casa e tu não estás.

Só a Olympia continua a fazer-me companhia, e nela vou repetindo:

Amo-te! Amo-te! Amo-te! (sem a folha de papel colocada, propositadamente).

Nunca o disse mas a verdade é que sempre tive ciúmes da Olympia!

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publicado às 11:50

ESCRITOS A MEIAS.

por Kok, em 03.06.13

O Regresso do Medo é o texto que partilhei com os donos do blog: universodeparalelos e a que podem aceder clicando ali em universo a meias.

Sugiro que leiam o menciondo texto, não tanto pelo que eu escrevi (adivinham que parte?) mas pelo que foi acrescentado e que é bastante interessante.

Leiam sem medos!

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publicado às 17:42

O ENGATE

por Kok, em 10.12.12

 

O final do dia chegou calmo e sem pressas, afinal igual a tantos outros já passados.

Do sol somente as poucas nuvens ainda reflectiam os tons alaranjados dos seus raios, restos de um dia que fora muito quente obrigando cada um a refugiar-se sob o toldo de uma esplanada ao mesmo tempo que ingeria algumas cervejas para afogar uma sede quase infinita. Aparentemente indiferentes ao calor, turistas acabados de chegar passeavam-se pelas tuas.

Ao redor do lago onde nadavam patos e cisnes (também eles patos), descansavam uns e outras, deitados na relva, adormecidos alguns mas abraçados muitos outros, estes  trocando afagos e carícias escondidas das vistas mas não das mãos que, tacteando  percorriam íntimos recantos conhecidos e reconhecidos de outras tardes ou de outras noites!

Foi num dia assim que a vi pela primeira vez, quando caminhava pela margem do rio depois de ter sido expulso violentamente do restaurante onde me recusara a pagar o almoço, por não ter dinheiro. Claro que sabia antecipadamente estar sujeito a que tal me acontecesse, mas o que fazer quando chega a hora da fome chegar e não ter um cêntimo no bolso? É verdade que podia ter pedido unicamente uma sopinha, uma sandes e um cafezito; mas quando pelo mesmo preço podia comer um cozido à portuguesa regado com um óptimo vinho tinto maduro e terminar com um café e um whisky velho, depois de um excelente leite-creme como sobremesa… a opção não deixa dúvidas.

É verdade que me arremessaram uma cadeira que foi acertar na vitrina dos pudins e das tardes, e que ainda me tentaram agarrar ao mesmo tempo que gritavam pela polícia.

Mas qual quê! Larguei-me rua abaixo em forte correria, virei à esquerda para a travessa da linha do comboio, saltei a vedação e passei-me para o outro lado das linhas.

Reduzi a marcha forçada para uma toada calma e descontraída (porque não é de todo aconselhável fazer esforços durante a digestão), sem deixar de estar alerta não fosse algum “gosma” mais dedicado me estar perseguindo. Nada! Tudo na paz dos anjos…

Afinal a coisa não correu mal…

Foi então que a vi pela primeira vez: caminhava à minha frente balançando os cabelos soltos ao vento, bamboleando as ancas num ondular suave e sensual, chamativo e sem dívida bastante apelativo, dentro de uns calções curtos; uma t-shirt azul envolvia-lhe o tronco.

Caminhei até ficar ao seu lado. A alça da sacola de pele que levava ao ombro passava  entre as duas mamas fazendo-as realçar sob a t-shirt escura, quer em volume, quer em tamanho; não que precisasse pois “falavam” por si mesmas, balançando ligeiramente libertas da prisão de um inexistente soutien, deixando perceber os mamilos que a t-shirt tapava mas não escondia.

A coisa estava a ficar melhor…

Olhou-me, entre curiosa e desconfiada!

-Olá!, disse-lhe sem grande convicção.

-Olá, respondeu-me num misto de surpresa e de desconfiança.

Caminhámos a par durante dois ou três metros, cada um de nós imaginando a melhor maneira de continuar a conversa, ela na expectativa de me “despachar” e eu na tentativa de a cativar.

Avancei: -Chamo-me Paulo Gil; e tu?

-Isabel…

Fazes o quê?, de onde és?, onde moras? Tens uns ténis muito fixes!, a conversa de que normalmente é o caminho para outras conversas, como por exemplo:

-Não estás com sede? Eu até te pagava uma cervejinha mas estou teso…

Fez-se desentendida e continuámos caminhando, falando, dizendo e desdizendo, acertando menos do que errando, quando subitamente ela me diz:

-Não te lembras de mim, pois não?

-Bem… como é que eu me podia ter esquecido duma gaja destas?, a…, pois não me lembro…

-Tu chamas-te José da Silva Marques! Mais conhecido por Zézé dos Engates.

-Mau…

-Pois é, isso de quereres ser Paulo Gil é para engate, não é? Diz lá…

-Mas conheces-me d’ádonde?

-Da esquadra, desde aquela madrugada em que a miúda italiana apresentou queixa por tentativa de violação. Lembras-te?

-Violação? Atão távamos na discoteca todos agarradinhos e ela disse-me:

-Voglo una focaccia

-E tu…

-…e eu avancei…

-…sem saberes que ela se referia a uma fatia de bolo, ou pão ou lá o que é!

-Mas como é que sabes isso tudo? Tu és polícia?

-Sou; fui eu que te interroguei e tratei da ocorrência.

-Eras a agente má… quero dizer boa, quero dizer a agente que… as minhas costas…

-Exactamente. E nunca me esqueço de uma cara, sobretudo de gajos como tu! Ainda te dóiem as costas? (Ahahahah)

A coisa afinal estava a ficar pior…

-Mas eu…

-Vai-te lá embora antes que eu me arrependa. Tenho a certeza que hoje já fizeste alguma coisa que justifique a tua detenção.

-Oh Srª , eu…

-Andor, andor…

Pirei-me já a pensar ter que engatar um esquema para o jantar!

Bolas, com tantas gajas aqui à volta tinha que tropeçar com a bófia!?

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publicado às 00:58


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