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a NOITE e a MADRUGADA

por Kok, em 08.05.11

Já é tarde na noite.

Já é madrugada.

Sentado num sofá que já foi de um lustroso veludo azul e que agora apresenta as mazelas dos anos passados a suportar outros ânus, tento ler o livro que seguro preguiçosamente nas mãos.

Não consigo concentrar-me nem na grafia, nem no conteúdo.

O programa televisivo é maçador; é uma espécie de repetição de outros programas maçadores que todas as noites nos querem servir a estas horas tardias.

Clique! Desligado.

Sinto que estou naquela fase intermédia quando ainda não tenho sono mas que parece que tenho.

Deito o livro invertido sobre a mesa, sem o fechar, evitando assim procurar algo que sirva para marcar onde parei a leitura. Uma preocupação inútil já que não fixei o que estive lendo; nem mesmo se estive a ler.

Apago o candeeiro de mesa, uma garrafa electrificada encimada por um abajur de cor verde esbatido e que ilumina a sala com uma luz raiada verde-amarelada.

Só me levanto depois de, na penumbra que me rodeia, conseguir ver bem definidos os contornos da mobília, evitando assim percalços dolorosos anteriormente repetidos.

Deito-me na cama companheira de outros sonos e de outras insónias, mantendo o quarto sem luz acesa.

Quente!

O quarto está quente!

Não é bem calor; é aquela temperatura que nos faz sentir “pegajosos” apesar de inertes.

Já sei que não vou adormecer. Olho o tecto sem o ver, pensando no que fazer.

Finjo-me adormecido?, Levanto-me?

Mantenho-me assim indeciso entre dez a quinze minutos, esticando o corpo em diversas posições ao mesmo tempo que agrido a almofada vezes sem conta, resmungando contra mim mesmo porque não me imponho a mim próprio.

Levanto-me!

Volto para a sala, acendo o candeeiro de mesa, sento-me no sofá de veludo e mazelas e volto a ligar a televisão.

O programa maçador deu lugar a um programa manhoso onde é explicada a forma como uns seres minúsculos e transparentes vivem nas profundezas dos oceanos.

Tem tradução simultânea e também tem legendas.

Enquanto observo vou pensando: que raio de programa para esta hora.

Estará alguém a ver isto?

Mudo de canal. Um concurso!

Volto a mudar. Outro concurso!

Mudo uma vez mais: Vendas por catálogos!

Atrevo-me a mudar de canal? Nem pensar. Clique! Desligado.

Levanto-me e “arrasto-me” até à varanda.

A rua, fracamente iluminada por um velho candeeiro pregado na parede de um dos prédios, está deserta.

No céu uma lua quase cheia, que reflecte mais luz que o velho candeeiro, não deixa ver as estrelas; desconfio que estejam lá, mas não posso confirmar.

Detenho-me fixando aquela lua quase cheia, muito branca e levemente amarelada.

Parece-me aquela máscara teatral que representa o drama. Parece uma lua triste…

Um pássaro passa voando, rasando a varanda!

Não é um pássaro. É um morcego!

Tão rápido se mostrou e mais rápido ainda desapareceu, numa busca contínua dos insectos que lhe servem de alimento.

Gostava de ter asas.

Gostava de ter asas e voar para onde quisesse e quando quisesse.

Gostava de voar sem destino, somente ao sabor da vontade e por uma vez ao olhar, tudo visse desde cima. O mar e a terra; os rios e os campos; as ondas e as árvores…

Deve ser muito bom ter asas, mas só as aves as podem ter e só os pássaros se aproveitam delas. Os aviões também têm, mas eles não contam.

E todavia a imaginação voa sem necessitar de asas reais cobertas de penas!

E voa quando quer e para onde quer, sem destino e ao sabor da vontade, sem hora de chegada. Só tem hora de partida!

Chegas em silêncio e pões os braços à minha volta encostando a cabeça ternamente às minhas costas, perguntando num sussurro: não te vens deitar?

Volto-me e correspondendo ao abraço, dou-lhe um beijo.

-Hoje estou assim; parece que tenho sono mas não consigo adormecer. Tentei ler aquele livro, aberto sobre a mesa, mas nem mesmo assim, o que não é normal.

-Anda, vais ver que agora já consegues.

-Ok, vamos então.

Volto a apagar o candeeiro de mesa e, abraçados, caminhamos lentamente em direcção ao quarto enquanto lhe vou contando:

-Estava ali a apensar como seria bom ter umas asas para...

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publicado às 02:14


12 comentários

De DyDa/Flordeliz a 08.05.2011 às 20:00

Custa adormecer
Mas também custa acordar pela manhã

Se não consigo dormir
Logo quero levantar
Para que o colchão
Não me possa devorar...

Bom resto de Domingo

De Kok a 09.05.2011 às 12:47

É isso mesmo. Também não gosto de estar deitado, ainda que goste de dormir.
Mas são nas madrugadas que melhor me sinto e é quando melhor ordeno as ideias.
Manias...

Beijo!

De Existe um Olhar a 12.05.2011 às 22:58

Como seria bom ter umas asas para voar para praias paradisíacas, águas quentes e transparentes. Voar até aos picos mais altos e ter a sensação de ter o mundo aos nossos pés. Voar rasante nas planícies verdejantes, acompanhando o serpentear dos rios, aterrar de quando em vez em lagos de águas calmas e frescas. Voar por entre as estrelas até o dia amanhecer e não ter de dormir nas madrugadas em que o sono tarda a chegar.
Bons sonhos
Beijos
Manu

De Kok a 23.05.2011 às 21:24

Que bom seria...
E que bom seria poder repetir, e repetir, e repetir, e repetir até que houvesse vontade.
Porque nasci "desasado" voar não me é possível.
Resta-me imaginar-me voando até onde essa mesma imaginação me levar.
Beijos e sorrisos.

De poetazarolho a 27.05.2011 às 23:28

“Entradas grátis”

Pr’o oceanário há entradas
Não se olha a cavalo dado
E se com os tubarões nadas
Vais a secretário de estado

Pr’o zoológico há bilhetes
Os outros não ficaram atrás
Na boca do leão cabeça metes
E brevemente ministro serás

Só terás que assumir o risco
Se queres nesta vida singrar
Algumas dentadas irás levar

Para não servires de petisco
Fazes o que te ordena o leão
E nunca desiludas o tubarão.

De Kok a 24.07.2011 às 22:03

Entradas grátis? Acabaram-se...

De maria a 20.07.2011 às 23:58

Ainda ontem te dizia que gostava muito do que escreves...este post dá-me razão, mais um que gostei muito :)

Ter asas é o sonho de muitos, ter asas para poder voar para qualquer lado ou simplesmente ao sabor do vento...não sendo possível tê-las, resta-nos a imaginação, e esta tem o poder de nos levar onde queremos sem sairmos do mesmo lugar, sonhar sem estarmos a dormir e mudar as coisas segundo o nosso desejo...

Beijinho :)

De Kok a 24.07.2011 às 22:26

É verdade que a imaginação nos leva para onde formos capazes de ir, capazes de imaginar, sem precisamos daquelas asas cheias de penas.
Quando isso acontece é assim uma espécie de libertação, de uma viagem sem fim à vista e cujo destino é sempre agradável, tal como é o nosso desejo.
Para imaginar coisas terríveis já a realidade, ainda que algumas vezes...
Beijinho, um :)) e

§-é sempre muito bom quando nos dizem que gostam do que fazemos.
Saber que gostas do que escrevo "obriga-me" a escrever mais e melhor; sobretudo melhor!
MU@!

De Janita a 06.08.2015 às 23:14



E depois...dormiste, Kok??

Beijokas sem insónias.

:-))

De Kok a 07.08.2015 às 15:21

Não tenho a resposta porque não era eu que estava lá.
A resposta deixei-a ficar para a imaginação de quem me lesse; nesta caso, a tua.
Beijokas embaladas em sorrisos

De Janita a 07.08.2015 às 23:37



Ah, esta narrativa não foi baseada em factos reais!
Foi tudo obra de ficção!
Pensei que fosse uma vivência tua
Lá te espero com mais...

Beijokas com sorrisos de admiração ( não é espanto )

De Kok a 08.08.2015 às 10:57

Por aqui pouco há de factos reais ainda que alguns tenham origem em algo que ouvi ou vi e a partir daí (espremendo as meninges) lá sai um texto.
Se assim entenderes podes continuar a passar por cá e decerto encontrarás outros textos que gostes. Ou não!

Beijokas e sorrisos

§-

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