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A CHEGADA

por Kok, em 12.05.10

Cheguei à estação quando ainda faltavam quase vinte minutos para a chegada do comboio e poucas eram as pessoas que estavam na plataforma para além do chefe da estação e de um ou outro empregado vestido de azul, a farda da companhia.

O dia amanhecera frio sem vento e sem nuvens.

Levantei-me cedo. A custo!

Porque é que os comboios chegam sempre muito cedo?

Porquê essa pressa toda em chegar?

Não podiam chegar depois do almoço?

Ou à hora do lanche?

À minha pergunta o chefe da estação confirmou o atraso de meia hora o que mais me fez arrepender por me ter levantado tão cedo. Perdi, praticamente, uma hora de sono.

E agora? Não vou voltar a deitar-me ainda que muito o deseje.

Resta-me aguardar.

Lentamente a estação foi-se enchendo de gente, pessoas que, tal como eu, também vinham esperar outras pessoas. Senti algum prazer enquanto as ia informando do atraso na chegada, chegando ao exagero de acrescentar mais uns dez ou vinte minutos ao tempo real do atrazo, numa espécie de vingança sádica sobre pessoas que nem conhecia. Sei que foi uma parvoíce. Mas não consegui evitar e sempre aliviou o desconforto que sentia.

Passeei para lá e para cá enquanto os ponteiros passavam vagarosamente entre cada minuto do enorme relógio pendurado na parede da estação.

Ao longe um apito!

Já lá vem já lá vem!, gritam alguns miúdos correndo até ao final da plataforma da estação.

Já lá vinha, de facto!

Chegou soprando fumo e chocalhando ferros enquanto os travões gemiam numa agonia para, finalmente, se deter. Não sei quantas, mas acho que todas as portas se abriram e os passageiros saíram em fila, parecendo formigas saindo do formigueiro, carregando malas e mais malas, sacos e mochilas, electrodomésticos e carrinhos de bebé. Quase todos os rostos aparentavam sinais de cansaço que se amenizavam no abraço aos familiares e aos amigos que os esperavam.

Sem pressas foram saindo da estação em direcção à vila, conversando sobre a viagem contando as novidades de lá e também as de cá.

Olhei à volta e não restava ninguém! Até o comboio tinha abalado para outras paragens. Apesar de todas as promessas feitas, trocadas, repetidas, quem eu viera esperar não chegou. Fiquei parado, com o olhar fixo na linha que trouxera o comboio, alheado do que me rodeava, como se aquela não chegada tivesse absorvido todas as minhas ideias, vontades e actos.

Não me recordo como voltei para casa, mas voltei.

Sentado na sala penso, tentando encontrar uma justificação: atrasou-se e perdeu o comboio; decidiu vir de carro; decidiu vir amanhã…

Mas eu pressentia que não era assim. Decidiu não vir e eu sabia porquê.

Habituada como estava de viver num ritmo frenético e “fechada” numa cidade grande, este espaço aberto e livre das planícies a perder de vista, eram espaços a mais que a “esmagavam”.

Mas na cidade, entre casas e carros, ruas e avenidas, eu sufocava por falta de espaço…

Não voltei a falar-lhe. Nem ela esperava que eu o fizesse.

Ficámos assim como que parados no tempo, numa expectativa de um próximo encontro sabendo ambos que isso nunca acontecerá!

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publicado às 03:18


6 comentários

De maria a 12.05.2010 às 11:13

Um encontro que nunca se deu...que ficou suspenso, não pela falta de vontade de estar junto, mas pelo medo de não conseguir deixar o que se tem...

Ela não veio e ele não foi.

E lembrei-me de uma passagem de um livro que li:

"Eu pensava que nós estavamos apaixonados, que tu me amavas...
-E amo Damião. Mas não à custa de deixar tudo aquilo que gosto, tudo o que tem importância para mim. Não para abandonar os meus projectos, a minha família, o meu trabalho, os meus amigos. É aqui que vivo e é nesta cidade que está tudo o que dá sentido à minha vida...
-Eu faço parte desse sentido, não? - perguntou ele quase a gritar.
-Sim, mas não és todo o sentido, não és o único que lhe dá sentido...o amor é tão importante na minha vida que não há nada que se possa opor à sua força...Se realmente nos amamos...Se o nosso amor faz com que estejamos juntos, isso acontecerá...Não sei como, mas acontecerá."
Livro "Conta comigo" de Jorge Bucay

Beijinho




De Kok a 14.05.2010 às 18:57

Já fui "googlar" para saber sobre o Jorge Bucay, que desconhecia. Pelo menos não me recordo de ouvir falar.
Descobri pensamentos muito interessantes. O que não é de estranhar quando ouvimos/lemos coisas de gente inteligente.
Que o amor não seja TODO o sentido de uma vida, faz todo o sentido!

Certamente que sabes isto, mas ainda assim quero dizer-te que estes meus pensamentos não me reflectem. São somente produtos da minha imaginação!
Posto isto, vou repetir um pensamento do Sr. Bucay:
"O amor verdadeiro não é outra coisa do que o desejo
inevitável de ajudar o outro a que seja quem ele é."
Acho que também se pode aplicar à amizade.

Beijokassss

De maria a 14.05.2010 às 23:16

Claro que sei que muito do que escrevemos é fruto da nossa imaginação, no entanto não deixa de ser bonito.

O que escrevemos, apesar de nem sempre ter a ver connosco, acaba por revelar um bocadinho de nós...a nossa sensibilidade, a nossa forma de estar e sentir, o nosso humor...a ajudar a que os outros tenham uma pequenina ideia do que somos enquanto pessoas...acho!

Talvez por isso muita gente não entende o que escrevo...misturo realidade com imaginação, sonhos e vontades num tom de brincadeira e seriedade...

Jorge Bucay é um escritor que escreve livros denominados de "auto ajuda"...tenho 3 livros dele e tem histórias pequeninas, mas muito engraçadas e que nos fazem pensar...gosto muito e já publiquei algumas nos meus blogs...acho que ias gostar também :)

São livros que normalmente encontras em estações de serviço ou ervanárias eheheh

"Conta comigo" "Deixa-me que te conte" e "Contos para pensar" são os títulos dos livros dele.

Claro que essa frase se pode aplicar à Amizade, afinal Amizade é uma forma de Amor também :)

Beijinho :)


De Ana Paula Palma a 14.05.2010 às 23:59

Obrigada pela visita. Pareces ser um sonhador. Um beijinho.

De sandra a 24.05.2010 às 03:59

APROVEITO PARA CONVIDAR A TODOS A VIM ATÉ A INTERAÇÃO DE AMIGOS
http://sandrarandrade7.blogspot.com/ E CONFERIR UM POUCO MAIS DESSE MOMENTO HISTÓRICO. VENHA VISITAR JARAGUÁ DO SUL-SC- BRASIL-
SERÁ UM GRANDE PRAZER EM TE RECEBER POR LÁ.
TEM MAIS DOIS MUSEUS QUE ESTAM LÁ POSTADO. VAMOS VISITAR??
VOU TE ESPERAR.
]CARINHOSAMENTE.
SANDRA

De Lena a 25.05.2010 às 11:38

Olá!
Ao ler o texto, lá me teletransportei para 1 estação de comboio. Mas tem graça porque eu não esperava ninguém, era mais o comboio para me levar onde a minha imaginação quisesse :)

Deixo um convite: Junte-se a nós no dia 10 de Junho, no Convento dos Frades Franciscanos, em Trancoso, num duplo evento: «Encontro de Bloggers e lançamento do livro "Aldeias Históricas de Portugal – Guia Turístico". Para estar presente, envie um mail para aminhaldeia@sapo.pt a solicitar o formulário de inscrição e o programa das festividades. Faça-o com antecedência, pois as inscrições são até dia 2 de Junho.

Abraço
Lena

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