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A CASA À BEIRA DA ESTRADA

por Kok, em 31.03.10

Sempre que passava naquela estrada, estreita, por entre as árvores que, espaçadas, pareciam nascer das searas de trigo e de milho nos campos a perder de vista, aquela casa prendia-me o olhar. Porquê não sei. Talvez por ser a única existente naquele lugar.

Não era muito diferente de outras que já vira, nem era especialmente bonita. E no entanto em cada viagem ficava ansioso durante  o caminho até por ela passar; e vê-la perder-se na distância deixava-me ligeiramente angustiado. Será que voltarei a passar por aqui? Será que a voltarei a ver?

A primeira vez que a vi era eu miúdo. Ia sentado no banco traseiro do VW Carocha. Os meus olhos mal chegavam à janela do carro. Ainda assim, vi-a! Caiada de branco, flores à frente por baixo da janela e os dois degraus que davam acesso à porta de entrada. Claro que nessa primeira vez só vi mesmo a casa. Os pormenores foram-me chegando lentamente, juntando-os a cada passagem. A porta é castanha tal como as portadas das janelas que nunca vi abertas. Nem as janelas nem a porta. Tem uma chaminé alta e o vermelho das telhas “comido” pelo sol deixa-as numa tonalidade indefinida entre o rosa e o laranja. Não sei o que existe nas traseiras da casa, se algo mais para além dos campos cultivados. Não sei se existem galinhas ou outros animais. Nunca parei para ver. Nalgumas vezes vi um velhote à porta, sentado num dos degraus; o mais alto. Tinha os cotovelos apoiados nos joelhos e descansava a cabeça com o queixo sobre as mãos cruzadas. O chapéu, velho de muitos sois, caído para a frente escondia-lhe quase totalmente o rosto. Lembro-me que estava fumando. Encostado à parede descansava um cajado. Não resisti e acenei-lhe, num gesto misto de olá/adeus. Não sei se me viu. Noutras vezes uma menina com um vestido branco decorado com desenhos coloridos estava junto das flores debaixo da janela. Acenei-lhe. Acenou-me. Continuei a vê-la insistindo naquele gesto de despedida até que a curva da estrada as escondeu. A menina e a casa. Em todas as viagens continuei a ver a casa. E continuei a querer ver a menina, de cabelos loiros. E continuei a acenar-lhe correspondendo ao seu acenar. Foram mais as vezes que não a vi. E por isso, de cada vez que a via, era uma alegria. Porque só tinha possibilidade de as ver, a menina e a casa, duas ou três vezes por ano. Fui vendo a menina crescer e a substituir os vestidos com desenhos por jeans e tops. E o velhote cada vez mais curvado e o chapéu escondendo-lhe o rosto cada vez mais. Não sei quando deixei de o ver. O cajado nunca mais esteve encostado à parede junto da porta. Já faz tempo que deixei de ver a menina dos cabelos loiros. Depois notei que as flores à frente por baixo da janela eram cada vez menos. E menos. E menos. Até que secaram, mortas de sede. Numa das vezes que por lá passei a chaminé tinha ruído abrindo um enorme rombo no telhado de onde um grande número de telhas já tinha desaparecido. Já vi a porta aberta. E as portadas das janelas também. Percebi que a casa estava morrendo aos poucos. Sem a família que lhe dava vida e sozinha onde nada mais existia, desistia de se manter erguida. Senti que ruía lentamente, todos os dias sempre mais um pouco, até que nada restasse de pé.

Porque agora, mesmo para iniciar as férias estão todos com pressa de chegar deixei de por lá passar desde que foi construída a auto-estrada. Continuo a lembrar-me da casa e do velhote e da menina dos cabelos loiros, de cada vez que viajo para sul. Quis voltar a vê-la mais uma vez. Uma última vez. E apesar dos protestos não fui pela auto-estrada. Fui pela velha estrada, estreita, mas não a encontrei. Já não seguia por entre as árvores. Porque já não haviam árvores. Já não era a estrada estreita porque tinha sido alargada. E tão alargada foi que a enterraram. Já não existia a casa à beira da estrada.

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publicado às 00:05


4 comentários

De maria a 04.05.2010 às 00:09

Ia jurar que já tinha comentado este post...mas lembrei que depois ele desapareceu...agora apareceu...mistério!

História bonita, uma história que podia ser minha ou de outra pessoa qualquer e que me fez lembrar a frase "Não voltes ao lugar onde foste feliz"...nada mais voltará a ser como foi...já me aconteceu tantas vezes o mesmo...lugares onde fui em criança e que em nome do progresso ou já não existem ou estão muito diferentes...ficam apenas na nossa memória :)

Gostei muito :)


Beijinhos :)

De Kok a 05.05.2010 às 01:36

Desapareceu? Não sei de que "mistério" falas...!
Às vezes e depois de ler o que escrevi volto "atrás" para emendar ou alterar uma ou outra frase. Mas se o comentário estiver feito, não desaparece. E seria muita coincidência que eu fizesse isso em simultâneo com a tua entrada.
Bem, mas já cá está e é isso que tenho de referir.
Fico contente por teres gostado. São recordações que podem ser de qualquer pessoa, e que imagino também nessa perspectiva.

Beijokassss

De Otília Martel a 16.01.2011 às 11:42

Engraçado... ao ler esta história recordei outra minha... outro local... outra casa...acho que já escrevi sobre ela...
Há memórias que nos ficam e nos acompanham num sonho ou ilusão...

Bela memória que leio pela 2ª. vez e só hoje consegui comentar porque a primeira vez me deixou um nó na garganta...
Bj

De Kok a 16.01.2011 às 16:36

Sabes...
Os sentimentos que tantas vezes nos fazem chorar são os mesmos que outras tantas vezes nos fazem sorrir.
São as recordações que se misturão com a imaginação.
São os sentimentos que nos arrastam para saudades escondidas/esquecidas.
São, afinal, a nossa maneira de estar e de sentir.
São o nosso viver!
Uma recordação que nos deixa um nó na garganta é uma saudade de algo triste porque reflecte uma perda; e no entanto, associado, há sempre alguma coisa boa; alguma coisa ou cena ou disparate de que resultaram gargalhadas incontidas.
Que também deixa saudade e que nos faz sorrir.

Beijokassss (e sorrisos)

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