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DIA DO (MEU) PAI

por Kok, em 19.03.10

Deitado na areia húmida da beira-mar olhava as estrelas que, no negrume da noite sem nuvens, cintilavam no céu tecto desta minha “cama” de hoje.

O mar em maré vazante e sem ondas, esbatia-se adormecido na areia em suaves e quase inexistentes ondas. Em redor tudo calmo.
Junto de mim e meio adormecido, o cão vadio que por toda a tarde me acompanhou sem que eu o tivesse chamado ou aliciado. Deve ter decidido que à falta de melhor eu seria uma boa hipótese para conseguir uma refeição. Puro engano…
O luar proporcionava à praia uma luminosidade suave e etérea. Ouviam-se os  sons abafados das vozes, dos murmúrios e dos gemidos dos casais que junto das rochas e escondidos da lua, se envolviam em beijos, carícias e afagos, promessas de amor e outras, coisas que durante o dia não tinham o mesmo “sabor” nem a mesma densidade de sentimentos.
Não me apetecia levantar; não queria ir-me embora; tinha vontade de ali continuar deitado e olhando as estrelas.
Raios! Porque tenho que ir? Porque tenho que voltar a casa?
Porque tenho que voltar a viver tudo outra vez?
Não foi suficiente ter passado por tudo uma vez, e outra, e outra? Tenho mesmo que reviver todo aquele desfiar de sofrimentos, de ais e de lamentos? De dores e de tormentos?
Tenho mesmo?
Raios partam isto.
Porque não era nada do que eu idealizei. Nada do que eu pensei há muitos anos atrás quando te vi pela primeira vez…
Ah, é verdade, eu nunca “te vi”!
Pelo menos eu não me lembro. Mas não admira pois eu só tinha dois anos quando tu morreste e a minha memória não vai tão longe.
Porque a verdade, pai, é que mesmo “nunca te tendo visto” sinto a tua falta. E tenho saudades tuas. Saudades que não morrem nem consigo matá-las. Lamentos que sinto e me perseguem diariamente como se lá tivesse estado naquele dia, naquela noite, quando tu me deixaste.
Incrivelmente e mesmo passados todos estes anos, que já são muitos, não consigo voltar àquele casa sem que todos estes e demais sentimentos me assolem. Bem tento “ausentar-me” e não me deixar arrastar pela emoção e pelas “recordações do que não vivi”. Mas não consigo.
E agora não sei como fazer. Nem sou capaz de decidir abandonar a casa nem sou capaz de lá voltar.
Vais ter que me ajudar, pai!
Não sei como, mas vais ter que me ajudar…

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publicado às 22:17


6 comentários

De maria a 20.03.2010 às 23:16

E vai ajudar concerteza :)

Lindo o que acabei de ler...uma bela homenagem :)

Podes não ter conhecido o teu pai, mas pai é sempre pai...por isso sentes essa saudade enorme até do que não viveste.

Nem sei mais o que escrever, mas adorei :)

Beijinhooos :)

De Kok a 23.03.2010 às 03:30

Obrigado Maria.
E não foram necessárias mais palavras para eu saber que me compreendeste.
A saudade que sinto (de algo que não vivi) é um sentimento de falta.
É uma mistura desses sentimentos.
Beijokassss

De maria a 23.03.2010 às 09:53

Compreendi perfeitamente porque também eu tenho saudades do que não vivi, no meu caso é dos avós que nunca tive...3 morreram antes de eu nascer e o último logo depois :(

Foi bom ler-te...quando eu digo que tenho saudades dos avós ninguém me entende, dizem que não é possível ter-se saudades do que não tivemos ou vivemos...pode ser assim com algumas coisas ou pessoas, mas não neste caso...

Claro que as saudades que eu tenho deles é baseada no que vejo com outros avós e netos...imagino como seria se os tivesse...

É mesmo sentimento de falta.

Beijinhooos :)


De Kok a 23.03.2010 às 23:49

Não surpreende que haja quem não entenda.
Porque a sensibilidade de cada um é "pessoal e intransmissível" já que cada um a sente e a vive à sua maneira.
Beijokassss

De joaopauloinquiridor a 28.04.2012 às 08:24

Caro confrade José!
Meus outonais olhos ficaram marejados ao ler tão enternecedor tributo que prestou ao seu saudoso pai...
Caloroso abraço! Saudações sentidas!
Até breve...
João Paulo de Oliveira
Diadema-SP

De Kok a 28.04.2012 às 15:20

Obrigado caro amigo pela sensibilidade que manifesta no entendimento do meu sentir!
Há coisas que se escrevem conforme o pensamento vai discorrendo no sentimento do momento!
Foi o que então me sucedeu e daí possa o texto deixá-lo transparecer!
Um grande abraço!

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