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NUMA MANHÃ de CHUVA

por Kok, em 02.04.14

-Sim sim, já estou na rua… Não, primeiro vou beber um café e ler o jornal… Atrasados? Mas atrasados porquê? Não é só de tarde? … Isso não me interessa; eu tenho… Ok então vai tu! Eu não vou. O gajo disse-me que a cena tinha sido alterada que só de tarde é que eu gravava. … Tábem, tábem…  adeus!

Desliguei e guardei o telemóvel. Duas passadas depois começou e vibrar dentro do bolso porque como de costume não bloqueei as teclas e ele “re-ligou-se” com ela que irritada me gritou:

-Úkékekéres agora?

-Nada! Xau!

Voltei a desligar e a desligá-lo mesmo, evitando assim que me chateassem. Porque o meu momento de beber o café e ler o jornal, à mesa da pastelaria da minha rua, é único; quase sagrado. E o cumprimentar a Idalina também tem a sua importância!

São agora quase 10 horas. O trânsito movimenta-se lento e barulhento. Andando em várias direcções, as pessoas passam aceleradas para mais um dia de trabalho, ou quem sabe para procurá-lo. A caminho da pastelaria vou observando o que à minha volta se passa e, sem surpresa, percebo que estou só no meio da muita gente. Admito até que sou transparente para quem por mim se cruza.

Não é uma sensação agradável. Nem desagradável. Aliás, nem sequer uma sensação. É uma constatação!

No passeio central da avenida suburbana onde “dormem” automóveis de variadas marcas e modelos, passeia-se um cão de raça indefinida, pintalgado de preto e amarelo, que vai cheirando todas as árvores e pneus que encontra e neles depositando algumas gotas de urina para que “quem” a seguir vier saiba que ele passou por ali. Afinal, para ele as árvores e os pneus dos carros funcionam como aquelas revistas ditas de cor-de-rosa vocacionadas para satisfazer curiosidades voyeuristas.

A pastelaria tem poucas mesas ocupadas ao contrário do balcão onde não há espaço para ninguém. Peço um café duplo, um copo de água e um folhado misto.

-Quer o folhado aquecido?

Como não tenho pressa, confirmo: Sim, por favor.

Sento-me junto da montra frigorífica onde bolos feitos de madrugada repousam nas prateleiras de vidro, exibindo um colorido de cremes e de outros tipos de peganhices para satisfação de gulosos para além de, visualmente, comporem uma qualquer mesa comemorativa numa festividade doméstica.

Encostada ao balcão ocupando o espaço do “serviço de mesas” está a D. Arménia, (uma vizinha muito larga e bastante pesada cuja simpatia é menor que a de um semáforo).

-Óh coisa, faz aí uma torrada com bastante manteiga e dá-me um galão escuro e um cruássã com recheio de chocolate.

-Sim D. Arménia, vou já fazer, responde a  coisa.

Começa a chover.

São pingos leves, dispersos, que vão progressivamente engrossando e aumentando a sua cadência até se assemelhar a um dilúvio, “expulsando ” da rua para o interior de cafés, pastelarias e outros, tudo o que é ser vivo: as pessoas e o tal cão preto e amarelo que de orelhas erguidas e o rabo entre as pernas veio deitar-se junto da mesa onde eu esperava pelo café duplo, o copo com água e o folhado misto, aquecido. Através da montra vejo passar um miúdo correndo, encharcado pela chuva, e logo depois uma mulher também encharcada apesar de empunhar um chapéu de chuva de cor vermelha mas que de pouco lhe serve; aparentemente são mais as varetas partidas do que as inteiras.

Também ela corre chamando o miúdo com voz estridente:

-Òh Francisquiiiiiinho, òh Francisquiiiiiinho, Òh Francis… deixei de a ouvir!

Momentos depois voltam a passar correndo em sentido contrário, o miúdo e a mulher, ambos mais encharcados de chuva e sem o tal chapéu de chuva vermelho.

Chega à mesa a Idalina, a empregada da pastelaria cujas generosas mamas “espreitam” parcialmente na blusa preta meio desabotoada, sem receio da chuva que cai lá fora, e que despertam o meu olhar mais do que o café duplo, o copo de água e o folhado misto aquecido e cortado ao meio, para me facilitar.

Demoro o olhar nas mamas tentando imaginar como será contemplá-las por inteiro; ela sabe por onde corre o meu pensamento. Sorri para mim, e debruçando-se –diria que sem necessidade- coloca sobre a mesa o meu pequeno almoço dizendo:

-O folhado misto está bem quentinho Sr. Peres, espero que goste. E bom proveito!

-Obrigado Idalina.

Olhando-a enquanto voltava para o balcão ondulando as roliças ancas como se fosse um poema de inspirado poeta, sabia que ela não se referiu ao café nem ao folhado misto.

-Olha lá ó coisa, este galão está muito escuro; e as torradas, demoram muito?

-Estão quase D. Arménia, responde a coisa levando o galão para clarear.

Voltando à mesa vejo o cão que, sentado e com o focinho à altura do tampo da mesa olhava ora para mim, ora para o folhado misto. Não era bem uma súplica mas…

Dispus-me a partilhar o folhado mas não tive tempo porque entraram na pastelaria ainda encharcados, o miúdo e a mulher.

O cão volta-se e corre para junto do miúdo, que o abraça.

-Mãe, mãe, olha onde é que ele estava. Eu não te disse mãe?! Eu não te disse?

A mãe, cujos cabelos pingavam ensopados de tanta chuva, não parecia ouvi-lo. Só quer voltar para casa, para um reconfortante duche bem quente. E pensa: se não fosse por ti pouco me importaria que o cão tivesse desaparecido. Estou tão farta do cão...

-Olha lá, então não vês que o galão está muito claro?! E as torradas? (não sabem fazer nada que tenha jeito; mal empregadas, resmunga a D. Arménia).

-Estão aqui D. Arménia, estão aqui, responde a coisa enquanto deita uns pingos de café no sacana do galão para que escureça sem que fique escuro. Coisa sofre…

O meu telemóvel vibra. É ela. Atendo? Não atendo?

Distraído, pressiono a tecla errada e desligo a chamada. Mas ela volta à carga.

-Estou!

-Então, desligaste-me a chamada? Onde é que estás?

-Foi sem querer; enganei-me na tecla.

-Sim, sim, pois… onde é que estás?

-Na pastelaria; estou a comer o pequeno almoço e…

-Aaaah! Já viste a Idalina?

-Já, porquê?

-Era só para saber. Agora que a viste já podes vir para os estúdios para começarmos a gravar? E despacha-te porque as cenas da tarde passaram para esta manhã.

-Então e a chuva?

-O que é que tem? Se estás com medo de te afogar pede à Idalina que te empreste as bóias. É a única maneira que tens de lhe pores as mãos!

E rindo alarvemente desligou o telefonema.

Caminho por entre as mesas para pagar no balcão o pequeno almoço e vejo a coisa recolhendo das mesas as loiças utilizadas em espasmos de risos mal contidos.

Interrogo-a com o olhar e ela responde-me com um arquear de sobrancelhas apontando com o queixo na direcção do balcão. Olhos nos olhos sorrimo-nos cumplices ocorrendo-nos ser o gesto canino um acto de  solidariedade para com a Sandra (a coisa).

Porque, junto ao balcão, o cão do Francisquinho de pata alçada mijava nas botas de cano alto da D. Arménia.

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