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UM DIA SEM HISTÓRIA

por Kok, em 18.02.12

 Eram cinco horas da tarde daquele dia.

Aliás, não eram bem cinco horas mas eram quase, quase, cinco horas da tarde, de uma tarde cinzenta e fria. Desde manhã que as nuvens baixas e escuras anunciavam a chuva que inevitavelmente apareceria ainda que o “tempo de praia” estivesse longe do fim.

Devagar foi-se instalando o vento; primeiro numa subtilmente disfarçada brisa mas que gradualmente foi ganhando a força necessária para sacudir as árvores em redor da praceta fazendo rodopiar as folhas secas que num bailado desenfreado eram arrancadas das árvores e atiradas de encontro às paredes dos prédios como que possuídas de um desejo suicida.

Os raros velhos que se arriscavam sair à rua caminhavam à beira rio com esforço ao mesmo tempo que seguravam no chapéu e no cachecol que pareciam querer seguir numa direcção oposta; não foi estranho ver alguns em perseguição dos seus próprios chapéus que, sem surpresa, “corriam” mais que os próprios donos.

-Pronto! Lá vens tu contar a história de uma qualquer desgraça da tua imaginação.

-Agora tens o dom da adivinhação? Desconhecia essa tua faceta.

-Qual adivinhação?, É só ler as primeiras linhas já se percebe como vai acabar.

-Ok, então e se for assim…

Pouco tempo passava das sete horas de manhã quando me levantei da cama. Abri os cortinados da janela do quarto virado para sul, debruçado sobre o Tejo.

No céu a lua ainda presente mostra-se imensamente pálida, com aquele aspecto que nos é familiar, ou seja o resultado de uma noite passada "ao relento".

O sol “nascido” das águas do rio brilhava por entre a renda de vigas de aço avermelhado formando a ponte que liga as duas margens desse rio que nos separa de dia mas que também nos junta à noite neste quarto alugado, longe da multidão.

O céu sem nuvens parecia anunciar um dia calmo sem vento, acentuando a continuação do clima ameno do dia anterior.

Olho a cama onde o teu corpo se adivinha em todas as suas forma sob o lençol branco que te cobre, deixando descoberta uma perna que teimosamente insistes em destapar  mesmo que esteja frio.

Acordo-te. Ambos temos que ir trabalhar e já são horas de levantar.

Resmungas: deixa-me!, quero dormir…

-Não podes, querida; tens mesmo que te levantar.

Rodas a cabeça para mim, abres preguiçosamente os olhos -os teus lindos olhos verdes- estendes os braços e abraças-me meigamente.

Sinto o teu perfume, o teu cheiro, a tua pele macia e sedosa…

-Ok, ok! Já estou a ver a cena.

-Já estás? Mas como? Nem eu próprio que a escrevo sei, como é possível que tu saibas?

-Queres ver?

-Vá, diz lá como vai ser.

-Ora bem, os gajos já estão abraçados, ele volta a deitar-se enrolam-se mais uma vez como fizeram durante toda a noite e depois adormecem e nem sequer vão trabalhar nesse dia. Que tal?

-Que tal? Sei lá que tal! Essa é a tua história, não é a minha.

-Vocês que têm a mania que sabem escrever nunca aceitam uma ideia. Diz lá se não era uma boa história.

-Não sei pá. Ainda não a li. Mas escreve-a, completa-a, que eu depois de a ler já te posso dizer se gosto ou não. Que tal?

-Então e essa que estás a escrever? Como é que vai continuar?

-É como te disse; ainda não sei! E só vou saber quando a escrever. Eu depois mostro-te.

-Escritores…, tsss, têm a mania, é o que é! Tsss, tsss!

ilustração copiada de: ethosemconstrucao.blogspot.com/

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