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COMO COMEÇAR UM CONTO?

por Kok, em 16.09.11

Não é sempre mas acontece-me muitas vezes ter ideias a não conseguir “deitá-las” cá para fora. Ideias mas sem exageros:

em simultâneo uma;

duas é raro;

uma terceira seria um fenómeno, quiçáz 1 AVC.

É o caso. Sei o que quero dizer mas não sei como o descrever. Dizem-me que estou bloqueado! Eu não desminto, pois sempre deixa no ar um certo intelectualismo que não tenho, e que nem procuro. Mas não deixo de, interiormente, dar uma enorme gargalhada: intelectual, eu? Só mesmo por piada!

No meu cérebro as palavras surgem soltas e sem ligação tornando as frases sem sentido e desconexas. Não resulta espremer a massa acinzentada, descolorida pelo passar dos anos porque, para além de uma pequena porção de bolhas gasosas, nada mais sai que jeito tenha.

Decidi-me por um whisky (sem gelo nem água) porque me lembrei de ter lido que o Sr. Hemingway também bebia quando escrevia. Na verdade ele bebia. E também escrevia…! Dizem…

Não que me queira comparar com ele; o mencioná-lo foi unicamente para justificar junto da minha “Assistente” o facto de beber.

(Porque é que quando um gajo quer beber um dedal de álcool perguntam, (mas na verdade afirmando): isso não te vai fazer mal?!)

Bolas!!!

o-O-o

Preenchi mais de meia página de palavras, sem nada dizer, com uma única finalidade: “engolir” o tal whisky-malte sob o olhar atento e reprovador da minha “Assistente” mas desta vez sem o habitual comentário verbal.

o-O-o

Recostei-me na cadeira preguiçosamente enquanto apreciava o gole de whisky que propositadamente matinha na boca, fechada. Não que seja um conhecedor dos taninos e dos buquets e de toda essa amalgama de termos que os entendidos sentem obrigação de alardear aos olhos e ouvidos dos menos dotados em tais matérias. Mas gosto do que bebo, (ainda que nem sempre beba do que gosto), apreciando uns mais do que outros. Ainda assim, não entendo como algumas pessoas, após um bom jantar num óptimo restaurante, se atrevem a pedir um whisky velho, seja de malte ou não, com “duas pedrinhas de gelo”. Pior? Só se for o daquele americano a quem foi oferecido um Porto vintage (creio que de 1984, mas sem certeza), e o “cámone” juntando meia Coca-Cola bebeu a mistela após o que a gabou prazenteiro dizendo que nunca lhe tinha sabido tão bem uma Coca-Cola.

Mas, como ia contando, saboreava o gole de whisky enquanto ia pondo as ideias em ordem quanto ao que desejava escrever. A história resumia-se a um velho, um miúdo e um burro. Também duas couves-flor, um presunto de Trás-os-Montes e um passe-vite. Era o que eu tinha em mente mas com o passar das horas o velho passou a ser uma mulher que trabalhava numa portagem da Brisa, o miúdo afinal já era um gajo adulto que fugira da tropa e o burro desaparecera dando lugar a um cão guardador de rebanhos mas que estava no desemprego, sem rebanho para guardar. O passe-vite passou-se num ápice, as couves-flor foram salteadas numa frigideira (ou sertã) com um pouco de azeite, alhos e salsa e o presunto continua virgem, pendurado no fumeiro do velho.

Ao chegar a este ponto sentia-me muito confuso o que me dificultava dar seguimento à tal história. Tanto mais que entretanto me apareceu uma cadela. Não sei explicar como, nem de onde, nem porquê. Mas recordo-me que se deitava com qualquer um e que com qualquer um “coitava”. Era “uma cabra”, o raio da cadela!

Findo o turno, a mulher que trabalhava na portagem da Brisa foi para casa onde o filho que fugira da tropa já a esperava com a ceia (pizza primavera) aquecida no microondas; o cão guardador de rebanhos dormitava debaixo da mesa da cozinha. A “cabra” da cadela estava na casa do vizinho, um pastor alemão de boa aparência. Neste momento da “coisa” soa uma forte batida na porta que se abre repentinamente deixando entrar o burro, o tal que dera lugar ao cão guardador de rebanhos e que dormitava debaixo da mesa da cozinha.

-Boa noite!, disse o burro.

o-O-o

Com tamanha embrulhada achei por bem beber mais um whisky de malte, na expectativa de tudo se clarificar dentro da minha cabeça.

o-O-o

Quando acordei já a noite morria e a claridade do dia entrava pela janela cujo estore não tinha sido corrido. Percebi que tinha dormido no sofá, vestido e calçado; a minha “Assistente” não a vi mas adivinhei-a deitada na cama dormindo calmamente. Mas porque dormi eu no sofá? Percebi quando me levantei porque o cálice, vazio de whisky de malte, rolou para o chão onde ficou descansando sobre a carpete tipo persa que cobria parte da sala. Uma vez mais tinha sido vencido na minha tentativa de escrever um conto, uma história, algo enfim que fossem o início daquele livro que durante anos sonhara, e ainda sonho, escrever. Tantas são as ideias que tenho! Mas não as consigo completar, não as consigo libertar; às vezes parecem-me cativas do meu cérebro feito prisão; porque querem sair, querem mostrar-se e não encontram meio de escapar.

Não vou desistir; não quero desistir; mas o meu tempo cada vez é menos. Lá mais para a noitinha, vou voltar a tentar… 

~//~

Já bebi um gole da “mézinha” logo após o jantar e antes de me sentar frente à secretária onde repousam as teclas que me hão de ajudar a encontrar a forma das minhas ideias saltarem cá para fora contando histórias sem nexo, ou pelo menos aparentemente sem nexo, porque como tudo na vida é relativo e as ideias são subjectivas, é possível que haja quem entenda as coisas diferentemente.

Sento-me, olho as teclas e pergunto-me: como se começa uma história?

“O velho sentado à mesa frente ao copo de vinho tinto corta uma fina fatia de queijo e…”

-Isto é um começo; mas antes não houve nada que merecesse uma referência por pequena que fosse?, de onde veio o velho, o queijo ou mesmo o vinho?

-Pois lá isso é verdade, mas também não se pode ir “buscar” o velho ao útero da mãe (para não ir ainda mais longe) se unicamente se pretende contar um episódio de uma história, ou de uma parte dessa mesma história; ou melhor, é somente começar um conto!

Este diálogo que tenho comigo mesmo "obriga-me" a continuar, ainda que não completamente convencido mas concordando que não seja necessário recuar milhares de anos para iniciar um conto.

E o melhor mesmo é começar pelo princípio. Assim: 

 

Era uma vez…

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