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A HORA DO PÃO

por Kok, em 13.05.09

Eram três horas da manhã e o pão ainda não tinha saído do forno!

Todos em redor pareciam alheados, olhos mortiços mirando o vazio, sem quaisquer perspectivas futuras, como se dependesse do pão o seu próprio futuro.
E não seria assim mesmo? Sem aquele pão poderiam mesmo ter futuro?
Os próprios padeiros, encostados aqui e ali, olhavam o forno numa mistura de ansiedade, de conformação e de desespero por não verem o seu trabalho terminado, parecendo que o próprio forno lutava contra eles e contra o tempo que por norma já teria sido mais do que suficiente para cozer o pão que todos esperavam para uma primeira dentada a que outras inevitavelmente se seguiriam!
Alguns de entre os “esperantes” esboçavam movimentos indefinidos, denunciando o início do desespero ou a angústia que começavam a possui-los pelo tempo de espera inusual, bocejando a espaços, e estendendo os membros na procura de uma mais confortável posição preparando-se para mais alguns momentos de espera, acreditando serem poucos.
Subitamente a porta do forno range, estremece e com um pequeno solavanco entreabre-se ligeiramente deixando sentir algum calor misturado dum agradável odor a pão cozido, quente e tostado, que todos simultaneamente inalam; mas estacou! Nem mais um movimento!
Num salto todos os padeiros se precipitam para a porta do forno e não sem um certo esforço seguram-na e iniciam um movimento de recuo, puxando-a até ficar totalmente aberta, mostrando o interior avermelhado coberto por uma considerável quantidade de pães, redondos e achatados, tostados e de crosta quebradiça, que a todos esperavam para a primeira e única refeição diária.
Os olhos dos que esperavam, até aqui mortiços e ausentes, ganham vida; lentamente e dir-se-ia sincronizados, todos os iniciam gestos para se levantarem e aproximarem da porta do forno, sem pressas nem atropelos, sabendo antecipadamente que a pressa não só não lhes dará mais pão como lhes não proporcionará mais energias, antes pelo contrário; correrias mais pão lhes exigiria e sabem por experiência que isso não acontece nunca.
O dia do pão é sempre igual; a excepção é a hora a que fica pronto e nunca a quantidade que cada um deles recebe.

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publicado às 22:48


2 comentários

De maria a 29.05.2009 às 00:06

Já li este conto duas vezes...e gostei muito.

Não consigo explicar, mas vejo nele mais que uma simples espera pelo pão acabado de sair do forno...sinto algo nas entrelinhas que ainda não consegui identificar...

Mas continua a escrever...sou a tua leitora n.º1.

Beijinhooos :)

De Kok a 01.06.2009 às 00:46

Comecei a escrever este texto quando soube da situação de pessoas (em África) que estavam confinadas a um campo de refugiados. E depois lembrei-me de outras situações mais ou menos semelhantes que existiam (e ainda existem) noutras partes do mundo.
Felizmente que nunca passei por tal, mas às vezes imagino (só imagino) como será estar num local totalmente dependentes de vontades alheias, até para morrer. Sendo que esta é a única certeza.
Bem, isto está a ficar macabro. Mas não tinha outra maneira de te dizer.
Beijinhosss com sorriso à mistura!

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