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NA ESPLANADA ao fim da tarde!

por Kok, em 26.10.13

É uma tarde de inverno, desagradável, com vento e chuva.

Virada para o mar num ligeiro declive, com mesas vermelhas e cadeiras plásticas da mesma cor por entre chapéus amarrados para não voarem ao sabor da ventania, vazia de gente, esta é a esplanada que ela escolheu para conversarmos.

Estranhei a ideia. Bem poderíamos conversar em casa, mas como dizer-lhe que não? Afinal as esplanadas também servem para conversarmos e fazê-lo ao ar livre não é pior nem melhor do que fazê-lo em casa; é somente diferente!

Decidi-me por uma mesa resguardada do vento e da chuva, rodeada de cadeiras de verga, confortáveis, frente a um copo por encher de uma cerveja por beber.

Esperei!

A demora dela será devida ao trânsito? Preocupado, decido ligar-lhe pelo telemóvel.

Antes de terminar a marcação dos números sinto-a chegar. Veio pelas minhas costas e,  sentando-se à minha frente, deixou sair um suspiro meio de cansaço meio de alívio por ter chegado, por ter onde descansar.

Olhá-mo-nos numa mistura de sentimentos e perguntas: estás bem?, o que se passa?, estás cansada?, esperaste muito tempo?,

Nada que não fossem as habituais interrogações de quando nos encontrávamos depois de um dia de trabalho.

Olhei-a nos olhos, inquieto, como que perguntando-lhe pelo “meu beijo”.

Olhou para longe, e ignorando-me mas sem me ignorar verdadeiramente disse-me perguntando:

-Já estás à espera à muito tempo?

É estranho, pensei eu; se combinou para uma hora antes e só agora chega é natural que eu esteja esperando à pelo menos uma hora.

-Estou!, respondi por impulso sem saber exactamente o que dizer.

Ignorando a minha resposta continuou falando num tom neutro, impessoal, como se eu não estivesse presente, dizendo que tínhamos que resolver a nossa situação, que não podíamos continuar assim, que estava grávida, que lhe tinha sido proposta uma nova e interessante oportunidade na empresa, nos escritórios de Nova Iorque onde o seu futuro está e onde já está também o Arthur (um gajo de quem eu nunca gostei), que é o pai da criança e que com ela prometeu casar-se.

Subitamente fiquei surdo!

Olhava-a, via-lhe os lábios mexerem-se mas nenhum som chegava até mim. Era como se eu estivesse planando sobre mim e sobre ela, vendo-nos numa espécie de sonho irreal, completamente isolados do mundo.

-… então?, não dizes nada??

Acordei não fazendo ideia do quanto e do quê mais, ela falou!

Olhava-me à espera do que eu dissesse, seguramente para concordar com as suas expectativas, quase numa súplica de: diz que sim!

-Estás grávida?

Foi tudo o que consegui articular porque foi o que mais impacto teve em mim todo aquele arrevesado de informação debitada à mesa da esplanada.

-Estou, mas fica descansado que não és tu o pai!

Fico descansado? A minha vontade foi levantar-me e desaparecer.

Mas como?

Como desaparecer de uma vida construída a dois e durante quase cinco anos?

Como  desaparecer assim, ignorando tudo o que se passou, tudo o que se viveu?

A vida não é exactamente um texto nem se resume a uma frase, que se eliminam, se  alteram ou se resolvem com a simplicidade de um click na tecla “delete”.

Levantei-me e, de punho fechado, agredi a mesa com toda a força do meu ser; o copo vazio juntamente com e a cerveja ainda cheia, saltaram num reflexo violento; ela espalhando espuma pelos ares e ele estilhaçando-se logo que embateu nas placas de   mármores de refugo que compunham o chão da esplanada.

-Tem calma, tem calma, dizia-me ela repetidamente...

Virei-lhe as costas e em duas passadas saí de cena enquanto num zoom gradual a cara dela, realçando os seus olhos azuis, aparece no close final.

-Corta! Está feito e perfeito!, gritou pelo megafone o realizador da novela que continuou debitando instruções: amanhã começamos às oito da manhã em estúdio.

Ok até amanhã!, respondi enquanto acendia um cigarro a caminho da desmaquilhação.

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publicado às 15:30


13 comentários

De Existe um Olhar a 26.10.2013 às 19:41

Bolas, fizeste-me estremecer, pensei mil e uma coisas durante a leitura e se o final tivesse sido diferente ia-te aconselhar a beberes, não uma, nem duas, mas um barril inteiro de imperial depois de teres mandado a dita senhora para um sítio que a gente cá sabe
E mais não digo "CORTA" segue-se nova gravação nos próximos minutos.

Enquanto isso não acontece deixo-te um beijo e sorriso cinematográfico

De Kok a 28.10.2013 às 14:20

Estas coisas dos desencontros...
Afinal a ficção não é muito diferente da realidade. Somente os finais deixam maiores sequelas (ou não) numa delas.
E como eu não gosto de finais tristes... à que aligeirar "a coisa".
Talvez volta para relatar o episódio seguinte!

Beijinhos com os sorrisos do costume!

De DyDa/Flordeliz a 26.10.2013 às 22:33

És um grande "pantomineiro".
Muito gostas de enganar os teus seguidores.
Mas...
- Não és o único. Ela, afinal também o havia enganado.

Uma coisa te digo:
- Uma hora à espera? Gabo-lhe a paciência!

Tens jeito para o guião, meu caro.
Continua. Vê lá se dás um jeito de introduzir mais umas reviravoltas na relação que terás assunto para mais 100 episódios e fazer a novela render.
Não é assim que elas se prolongam? Novelas da TV e novelos enrolados pela vida - a real.

Um abraço, sê bem regressado ao mundo dos folhetins.

De Kok a 28.10.2013 às 14:24

Pantomineiro? Ora essa!!!
Não és tu que "gostas" dos meus finais imprevistos? Então aqui tens!
Mas um dia destes vou-te enganar e arranjar um final sugerido desde o começo!
Prometo!

Beijinhos e sorrisos, sem fim!

De Rui Espírito Santo a 27.10.2013 às 11:27

...Ah ! ... Grande "cabra" ... estava eu a pensar cá com os meus botões !
Mulheeeeres !!! ... Além de o fazer esperar uma hora, ainda lhe dá esta notícia , assim de supetão ! Não há homem que resista ! :((( ... Destas, dispensam-se bem ! Vão para o raio que as parta ! ... :(((

... mas o "CORTA", veio-me "acordar" para a realidade ! Afinal, ... ela até é uma gaija porreira a desempenhar bem o seu papel e eu, ... fiquei mais aliviado e sem rancor ! rsrsrs

Muito bom ! :))))

Grande abraço ! :))
.

De Kok a 28.10.2013 às 14:31


Só mesmo tu é que me farias soltar fortes gargalhadas com esse teu comentário caprino!
Porque muitas vezes eu o utilizo verbalmente numa qualquer brejeirice.
Por exemplo: uma cadela com o cio que se põe a "jeito" para tudo o que é cão, não passa de "uma cabra"!!!

Akele abraço, pah!

§-também fiquei aliviado por te saber mais aliviado!

De golimix a 28.10.2013 às 12:43

Ohhh... cortaram Mas eu queria mais

Como sempre, bestial! Mas queria mesmo mais

De Kok a 28.10.2013 às 14:34

Não prometo nada, mas só tens que ficar atenta a -eventuais- novos episódios!

Bejix

De golimix a 28.10.2013 às 17:27

Ieiiiii!

De maria a 29.10.2013 às 10:30

Lembraste da história do Pedro e do lobo?

Habituada que estou aos teus escritos, por sinal muito bons, já não estranho o final e apesar de me deliciar a ler, espero ansiosamente por ele.

A vida e a ficção andam de mãos dadas e uma imita a outra...a vida real não é ficção, mas muitas vezes parece e a ficção não é tão ficção assim, tem sempre um pouco (muito) de real ou baseado na realidade...

Gostei muito

Beijinho :)

*vai ter continuação?
**ainda bem que não és tu o pai...já te estava a ver a mudar fraldas e a aquecer biberons

De Kok a 30.10.2013 às 17:15

Não sei se vai ter continuação. Sabes que histórias longas não são propriamente a minha preferência. "Bamos-a-ber"!
Pois, é bem lembrada essa do Pedro e o Lobo!Mas qualquer dia o Lobo aparece mesmo e depoius... tens a surpresa do final ser previsível.

Beijinhos!

De Joana a 04.11.2013 às 22:58

Fui bem enganada, por momentos deixou-me decoração apertado.
Ainda que é uma novela.
Boa semana

De Kok a 06.11.2013 às 11:48

Só tem piada precisamente por isso. Mas o importante é teres gostado.
Afinal é a vida do faz de conta.

Beijos e sorrisos

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