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o AMOR, a OLYMPIA e a CADEIRA GIRATÓRIA

por Kok, em 07.07.13

 

Foram muitos os anos que vivi com a certeza de que sempre que chegava a casa tu estavas sentado naquela cadeira giratória, toda ela de cor preta e já bastante velha, martelando nas teclas gastas e descoloridas da Olympia, a máquina de escrever bastante antiga que sempre te acompanhou; aliás, ela vivia contigo há tanto tempo que mais parecia fazer parte de ti, como se fosse uma extensão tua, um terceiro membro superior.

Desde que te conheci que conheço a Olympia. Foi nela que “te disse” pela primeira vez: amo-te! E ainda me lembro de me teres dito, meio irritado, que não se escreve à máquina sem primeiro colocar o papel  para não marcar o rolo de borracha. Eu lá sabia disso? Aprendi e não voltei a fazê-lo; mas repeti vezes sem conta: amo-te. Mesmo quando estavas concentrado na escrita e nem te apercebias da minha presença. Às vezes chegava-me junto a ti e abraçava-te pelas costas abraçando também e inevitavelmente a cadeira giratória. Ralhavas-me, porque perdias a concentração e “o fio à meada” fazendo com que se alterassem as tuas ideias e os enredos tomassem outro rumo e não o que tinhas idealizado. Culpaste-me até por dois ou três livros não terem sido acabados.

São aquelas folhas de papel amarelecido que ainda estão guardadas na última gaveta da tua mesa de cabeceira.

Vês? Continua a ser “a tua mesa de cabeceira”.

Recordo-me de cada livro que terminaste, exactamente quando os terminaste! Era quando puxavas a última folha fazendo correr o “tal” rolo de borracha com um ruído característico de: rrrrrr, inconfundível. Muito diferente do mesmo rrrrrr que se ouvia quando simplesmente acabavas uma folha para iniciar uma outra, continuando a história. Este rrrrrr era monótono, mas naquele notava-se alegria e simultaneamente alívio por teres chegado ao fim.

Eu, contente, corria para o escritório para te felicitar e tu, recostado na cadeira giratória olhando um infinito que só tu vias, acolhias-me por momentos no teu colo recebendo distraidamente carinhos e afagos, sem te ocorrer que eu gostaria que retribuísses.

Eu sabia! Nunca foste dado ao que apelidavas de lamechices e, conforme o tempo passava e a idade ia avançando, criticavas em crescendo os simples gestos afectivos que os casais trocavam em público. Isso também se reflecte nos teus livros onde o romance é ignorado, quase ostensivamente.

Mas eu também sabia que tu fora do escritório eras outra pessoa. No intervalo entre livros dávamos longos passeios pelos parques da cidade e pelos caminhos à beira mar, almoçávamos num daqueles restaurantes de praia e frequentávamos as esplanadas à sombra das árvores que cresciam à beira rio, beberricando chá frio de menta nos dias de maior calor.

Fizemos viagens maravilhosas e jamais esquecerei os dias passados em Singapura, a passagem pela Índia e as noites de Kuala Lumpur onde fumámos umas coisas e inalámos outras, e onde nos amámos loucamente. Quase que perdíamos o avião para o voo de regresso, lembras-te? Que disparate. Claro que te lembras!

Sei que me amavas, que me amaste de uma maneira sóbria e sem grandes gestos. Talvez por isso eu te amei como te amei, exuberantemente, gritando, como daquela vez no alto da falésia em Sagres fazendo com que um grupo de turistas se precipitasse para mim pensando que me querias empurrar para o mar!

Assustaste-te, ralhaste-me, mas depois…

Depois aproveitaste-te do episódio para escreveres aquele romance maravilhoso “Ao sabor do Vento”.

Amei-te com um amor intenso, enorme; amei-te por ti e por mim!

Que digo eu! Como se fosse possível deixar de te amar. Teria que te esquecer. E não há maneira de isso acontecer porque ainda não morri.

Agora chego a casa e tu não estás. A cadeira giratória ali está, vazia, mantendo à vista a velha t-shirt azul escura que, como tu dizias, te protegiam as costas para não se “pegarem” ao tecido da cadeira, quando escrevias de tronco nu. E tantas foram as vezes…

Agora chego a casa e tu não estás.

Só a Olympia continua a fazer-me companhia, e nela vou repetindo:

Amo-te! Amo-te! Amo-te! (sem a folha de papel colocada, propositadamente).

Nunca o disse mas a verdade é que sempre tive ciúmes da Olympia!

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publicado às 11:50


30 comentários

De Existe um Olhar a 16.07.2013 às 15:23

Um texto maravilhoso e extremamente bem escrito e agora é a minha vez de dizer: fiquei com ciúmes, não da Olímpia, mas por não conseguir escrever um texto assim tão emocionante!

Beijos e sorrisos ao correr da pena

De Kok a 20.07.2013 às 10:48

Agradeço-te pelo "maravilhoso".
É muito bom saber que gostam do que escrevemos."sabe bem"!
Ciúmes? Ora ora... e os que eu tenho (e não confesso) das tuas fotos? hummmm?

Beijinhos escritos com sorrisos

De golimix a 16.07.2013 às 17:37

Ainda bem que me avisaste que o "Bagos" tinha novidades! Isto é imperdível!!!

Tu sabes que este texto está estupendo! Só as tuas mãos e a tua imaginação nos levariam a um texto tão maravilhoso!


Bjix e parabéns!

De Kok a 20.07.2013 às 10:52

Obrigado (também) pelo "maravilhoso".
Sabendo que gostam do que escrevemos (ou fazemos) é uma "ajuda" para continuarmos fazendo. E se possível, fazer melhor ou pelo menos tentar!

Bejix com sorrisix maravilhix

De golimix a 21.07.2013 às 15:17

Não precisas de tentar muito para conseguir em pleno!

De Kok a 21.07.2013 às 22:05

Ok, e + 1 x obrigado

De Maria a 17.07.2013 às 08:19

Eu já tinha aqui lido um texto teu (nos bagos) que na altura achei fascinante. Recordo-me de me dizeres que aquilo não correspondia a uma realidade em concreto. Tinhas sido tu que tinhas inventado...

Este não sei se é criação tua ou se é uma dedicatória a alguém (de carne e osso) muito especial. EU AMEI! Tantas vezes que me elogias e agora chegou a vez de me render a ti! Tens alma de escritor. E tens talento! Muito bonito!

De Kok a 20.07.2013 às 11:01

Muito obrigado pela opinião e pelo incentivo que ajudam a querer continuar.
Parafraseando direi que babei...
Deste texto a realidade limita-se à cadeira giratória, à t-shirt azul e à Olympia (que aquiri há bastante tempo; é de cor verde, vê lá tu; verde!!!)
Tudo o resto é ficção espremida da minha imaginação!

Beijos e sorrisos

De contempladora ocidental a 17.07.2013 às 12:31

Um amor não correspondido...
Muito bem escrito, Kok
: )

De Kok a 20.07.2013 às 11:05

Merci!!
Amor não correspondido, sim. Mas há tantas formas de amar...

Beijinhos e sorrisos

De IMaria a 17.07.2013 às 13:38

vim aqui através da Golimix e ainda bem pois amei este texto, bem escrito e tão sentimental..parabéns.

De Kok a 20.07.2013 às 11:14

Olá! Obrigado pela visita e repete sempre que queiras. A entrada é livre e à saída nada se paga!
Agradeço o teu comentário e também por gostares!

Beijos e sorrisos!

De Teté a 17.07.2013 às 19:40

ADOREI! Triste, mas muito bem contado!

Beijocas sorridentes!

De Kok a 20.07.2013 às 11:10

Obrigado por teres gostado.
É bom para quem escreve e também para quem lê!
Afinal de pequenos prazeres também se completa a vida, né?

Beijokas e sorrisos, sem tristezas!

De Janita a 31.07.2013 às 19:54

Estes BAGOS são de comer e chorar por mais! Que história linda, bem escrita e de uma originalidade a toda a prova! :)

Sentir ciúmes de uma máquina de escrever? Porque não?!? Pois se ele passava mais tempo entregue a "ela"...
Mas lá que este amor era correspondido, sem dúvida que sim! Há, é diferentes formas de amar. Adorei e vejo que tens grande talento imaginativo para escrever belas e originais histórias de Amor. Quem diria, hem?


Quanto à minha relutância em relação ao Sapo, é porque um amigo já teve um blog aqui e eu fartei-me de perder comentários, já para não falar na chatice de estar sempre a escrever os dados. Agora, vou copiar o comment - não vá o diabo tecê-las - e guardar os dados. Ah...e benzer-me. Eheheh

Um beijo para o autor de tão belo texto.

PS: Não consegui ler o que escreveste de parceria com o teu amigo. Não consegui abrir nenhum link. Atão? Qué passa?

De Kok a 01.08.2013 às 11:28

Obrg. Janita por gostares. É sempre bom saber que gostam do que fazemos.
Como poderás ter visto os "bagos" não são publicados com regularidade; é um "produto" de geração intermitente.

Das dificuldades que referes não te sei responder. Mas não é por moderação já que não a tenho.
O tal texto em parceria podes ir lá directamente naquele endereço.

Beijos e sorrisos

§-adorei aquela parte do "quem diria, hem?"

De Joana a 31.07.2013 às 19:55

Romântica como sou só podia gostar do que li, apenas queria um final feliz.
Boa semana

De Kok a 01.08.2013 às 11:16

Olá Joaninha! Que bom teres gostado. Obrigado!
Mas tem um final feliz. Feliz como foi até ali, feliz à sua maneira.

Beijinhos e sorrisos, doces!

De Janita a 31.07.2013 às 19:59

Bolas! O comentário entrou ou não? Pelo sim pelo não, já que está copiado ...ei-lo...Tás a ver porque ké keu na gosto de sapos?

Estes BAGOS são de comer e chorar por mais! Que história linda, bem escrita e de uma originalidade a toda a prova! :)

Sentir ciúmes de uma máquina de escrever? Porque não?!? Pois se ele passava mais tempo entregue a "ela"...
Mas lá que este amor era correspondido, sem dúvida que sim! Há, é diferentes formas de amar. Adorei e vejo que tens grande talento imaginativo para escrever belas e originais histórias de Amor. Quem diria, hem?

Quanto à minha relutância em relação ao Sapo, é porque um amigo já teve um blog aqui e eu fartei-me de perder comentários, já para não falar na chatice de estar sempre a escrever os dados. Agora, vou copiar o comment - não vá o diabo tecê-las - e guardar os dados. Ah...e benzer-me. Eheheh

Um beijo para o autor de tão belo texto.

PS: Não consegui ler o que escreveste de parceria com o teu amigo. Não consegui abrir nenhum link. Atão? Qué passa?

De Kok a 01.08.2013 às 11:41

Entrou sim senhor! Ali está ele escarrapachado em cima!
Eu tenho um blog no blogger que deixei de utilizar porque me habituei ao sapo e nem tenho tido dificuldades. E como não percebo nada destas coisas (para além de utilizar, coisas básicas) não imagino sequer o motivo das tuas dificuldades.
Mas vai tentando. Verás que é um lugar acolhedor. Imagina-te numa tarde de verão a escrever à sombra de uma árvore, na beira de um lago, sobrevoado por lbelinhas e ouvindo o coaxar de rãs e sapos.
E com ?

Beijos e sorrisos

De Janita a 01.08.2013 às 20:47

Até me enterneceste com essa imagem idílica, Kok!! :))
Sobretudo a escrita, ou leitura, ao som do coaxar das rãs e sapos, sob a sombra refrescante de uma frondosa árvore e para molhar a goela uma bejeca fresquinha...bem ...um autêntico esplendor na relva. :)

Um beijinho

De Kok a 01.08.2013 às 21:25

Gostaste? Ainda bem pois essa foi a minha intençõn!

Beijos e sorrisos e + para o caminho!

De Universo de Paralelos a 13.08.2013 às 12:38

É o teu inconsciente a dizer "Escreve sem papel. Talvez ele volte, nem que seja só para ralhar."

De Kok a 26.08.2013 às 20:37

Achas? Eu entendo mais como a vontade de infringir uma regra, imposta, e que finalmente se sentiu liberta para o fazer sem restrições.
Todavia a tua ideia de "forçar" o regresso é igualmente interessante!

1 abraço pah!

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