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AMAR à DISTÂNCIA

por Kok, em 06.04.16

Estamos frente a frente sem nada dizermos durante horas. Tenho consciência de ter adormecido por momentos mas sempre consciente da tua presença. Reconheço a firmeza na tua postura que não se compadece com a minha fraqueza, nem com as minhas indecisões. Porque tu és firme ao contrário de mim que me deixo enredar no teu inebriante beijo e que mal toca os meus lábios deixando-me saborear-te, logo me sinto como que viajando numa outra dimensão. Sabes bem que a tua cor não é para mim (nunca o foi, devo dizer), impedimento e por isso esse não é argumento; não é, ponto final! Pouco me importam os teus antecedentes, de quais são as tuas origens nem de como chegaste até ao ponto em que estás porque não sou de me prender em assuntos de realezas nem dessas coisas a que muitos outros dão relevância. O que me importa de facto é ter a certeza de que gosto de ti (e tenho) e que tu, partilhando comigo o imenso prazer de estarmos juntos, me deixes amar-te sempre. Quero acreditar que o sonhas e o desejas como eu o desejo e quero. Adoro-te. Tu sabes que te adoro!

É quando chego a casa ao início de cada noite e me deixo cair no sofá desbotado onde a espuma espreita por entre os intervalos do puído tecido esverdeado, que me recordo daqueles muitos momentos que foram só nossos e que por mais que fossem, sempre foram poucos.

Quitar las gafas

Sentado, segurei os óculos pela dobradiça junto da peça frontal e, num gesto, num movimento contrário da cabeça, retirei-os para os colocar sobre a mesinha baixa onde ainda dorme o copo que na véspera me serviu e fez companhia nuns goles de irish whiskye (diferente do scotch whisky dizem eles).

Recordo-te com prazer revivendo os momentos que passámos a sós, dos quentes beijos que não tinham fim e que não desejávamos que terminassem, das mãos, as tuas e as minhas que nos percorriam e afagavam com ardor e paixão; de tudo, mas de tudo mesmo, me lembro de cada vez que chego a casa, esta casa cheia de recordações e de sentimentos, vazia é certo e todavia ocupada por muitos bons momentos de incontida felicidade.

Talvez devesse estar triste. Porém como? Não posso viver triste quando tenho na memória os carinhos, os afectos e as alegrias daquelas recordações. Não sei quando nos voltaremos a ver mas sempre que quisermos voltaremos estar juntos.

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publicado às 17:00

O PICK NICK (4ª parte)

por Kok, em 21.03.16

 

  (o fim da "festa")

-E depois, como é que isso acabou?

-Foi assim:

Cada vez mais furioso lá vinha o Alfredo, cuecas numa mão e a outra mal segurando o cobertor que lhe deixava a descoberto meia-peida, caminhando com um ténis bem calçado e com o outro só apoiado sobre o calcanhar, procurando papel para se limpar e limpar o ténis.
Acabou por esfregar a sola nas ervas para “tirar a maior” e no tronco de um pinheiro tentou raspar os laterais dos ténis; não só não limpou nada de jeito como acumulou alguma resina. Em completo desespero descalçou o ténis e arremeçou-o para longe, ficando com a mão suja de resina e trampa, e para não ficar por aí calcou com o pé descalço a maldita pinha que já lhe acertara na careca.
Foi o fim! Desatou aos berros e às voltas sobre um só pé, ao mesmo tempo que agarrava o pé nu “apinhoado”, não levando muito tempo para novamente se estatelar em pleno ervado, falhando por pouco um calhau mas acertando em cheio na raiz saliente do pinheiro!
Ouviu-se um plock e... apagou-se!! 
Esparramado junto do pinheiro e meio desmaiado (porque se passou completamente) balbuciava sons sem nexo e ria-se para toda a gente com uma expressão de completo idiota.

-À chegada dos bombeiros abraçou-os e beijou-os, continuando com aquele sorriso aparvalhado estampado no rosto, entrou na ambulância e lá foi a caminho do hospital, aos gritos: -Oh Dores, oh Dores... 'tô-ta ver toda às cores.

-E ria-se, e ria-se, e ria-se apalermadamente. E depois a D. Dores:

-Raios partam os Pick Nicks. Quem os inventou, inventou uma boa mer... oh Toninho anda cá ajudar a mãe...

-Nãvô!

-Tu não m'irrites Toninho, levas um tabéfe que tu vais ver... ANDA CÁ! JÁ!

-já não se pode brincar nem nada...

-Não resmungues e trabalha. E depressa! Só quero é chegar a casa... vamos embora!

E lá se foram.

FIM (finalmente)

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publicado às 20:49

O PICK NICK (3ª parte)

por Kok, em 17.01.16

(2ª continuaçõn)

Bem ou mal, mais mal que bem, o Alfredo lá se levantou não sem mais um ou outro escorreganço, e dando um pontapé num cágado, tentou dirigir-se rapidamente para a “mesa” afim de se limpar; não conseguiu, todavia, evitar mais um espalhanço e afocinhou numa bosta de vaca, das muitas que por ali haviam.
Então é que foi o bonito: o Alfredo todo encharcado que nem um pinto, os ténis ensopados fazendo “chlok, chlok”, cara cheia de lama e bosta de vaca, sangue ainda a escorrer-lhe da careca e os cabelos “ao penduro”, barafustando contra tudo e contra todos, gritando com a D.Dores e voltando a espalhar-se quando intentou acertar com duas galhetas no Toninho só porque ele continuava rindo.
-Raios partam esta merda toda, vem um gajo pr’áqui para passar uma tarde descansada e depois acontecem merdas e mais merdas! Nunca mais, t’ásaóvir oh Dores?!, nunca mais!!!
-Isso já eu tinha dito, mas agora já nem sei o que diga; se soubesse que era sempre assim ‘táva cá caída todos os dias. Nem sei há quanto tempo tempo eu não me ria tanto, Alfredo, tu nem sabes o que ‘tás a perder…
O Alfredo sacou a “mesa-toalha” do chão, misturando as migalhas, as formigas, os copos de plástico e os pratos de papel, e começou a operação de secagem que de pouco lhe valeu que o “ensopado” era bastante; nem as cuecas se salvaram.
Cada vez mais irritado e revoltado, berrou para a D.Dores:
-Eh, vamos embora!
-Oh Alfredo, já agora seca-te primeiro senão os estofos da “frágnéte” ficam todos cagados e mal cheirosos porque tu só cheiras a lodo e a trampa.
Lançando-lhe um olhar de revéz o Alfredo lá se dispôs a seguir o conselho e, tirando a camisa e as calças foi atrás de uma moita para tirar as cuecas e embrulhar-se no cobertor-mesa. Azar! Alguém lá estivera a “aliviar-se” e novamente os ténis lhe pregaram a partida, deixando-o sentado sobre dois cagalhões e mais meio que ainda arrefeciam.
-Oh Doooores, caraças!!! Isto já é demais, chiça! Trás-me daí papel…
A D.Dores já não podia mais! Nem força tinha para se levantar de tanto riso que a situação lhe provocava; nem a D.Dores, nem os restantes pick-nikistas que não sabiam para onde se virarem, tal a barrigada de riso que a todos acometia; era de facto demais para uma só tarde.

(continua)

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publicado às 10:59

O PICK NICK, (2ª parte)

por Kok, em 11.12.15

 (1ª continuaçõn)

-Ah!, que raio de grnhfz rtzhgd nghbdz…
-Qu’équetás p’ráí a dizer, Alfredo? Gritou a D.Dores enquanto despinhava as calças, junto à mesa-cobertor.
-Ond’éque tá o Toninho? Se apanho apanho aquele sacana parto-lhe as trombas àquele filha da …
-Alfredo!!! Vê lá o que vais dizer; olha que eu não sou nenhuma dessas que tu conheces lá nem sei donde. Sabes bem de quem ele é filho…
-Deixa-te de merdas. Esse gajo atirou-me uma pedra à cabeça e até sangue estou a deitar.
-Coitada da criança, táp’rálí a brincar com outros miúdos na beira da lagoa; bem quer ele saber do que tu tás a fazer. Ora deixa-me lá ver esse grande desastre…
-Pois, se fosse na tua carola não lhe chamavas assim…, porra qu’esta merda doi que se farta.
Levantando-se a custo, a barriga pesada e a digestão interrompida, aproximou-se da D.Dores e curvando-se “à frente” mostrou-lhe a careca donde o sangue pingava de três ou quatro pequenos golpes, tantos quantos os bicos da pinha que lhe tinha acertado “na pinha”.
A D.dores, ainda um pouco inclinada e segurando as calças espinhadas, mirou-lhe a careca e desabafa:
-É só isso!? Até parecia que estava a morrer, homem! Vai à lagoa lavar a cabeça que isso não é nada. Levaste com uma pinha na mona, foi o que foi. Olha, espera aí que tens aqui uns pinhões pegados, que se podem aproveitar…
-Vai à merda mais os pinhões, respondeu o Alfredo encaminhando-se para a margam da lagoa levando alternadamente a mão à cabeça e mirando os dedos sujos de sangue.
Não estava bem certo do melhor local para lavar a careca e também não se deu ao trabalho de escolher; foi quase em linha recta e chegado à margem inclinou-se para molhar o lenço de riscas brancas e vermelhas; não chegou a completar o movimento porque os ténis (que não eram de marca), deslizaram rápida e subitamente arrastando o Alfredo em toda a sua totalidade para dentro da água: splashshshsh!
-Grblll, brlll ò Dorbllles, chibllça, rais partam esta merda toda, gritou o Alfredo sentado na lagoa com água até por cima da enorme barriga, bem na base do bolso da camisa de onde assomava, completamente molhado, o maço de cigarros; do isqueiro usar-deitar-fora nem rasto; tinha-se afogado! Uma pena, pois não só era novo como ostentava o emblema do glorioso…
A D.Dores sentada no chão e agarrada à própria barriga, não conseguia mecher-se nem deixar de rir com sonoras gargalhadas à mistura com alguns peidos, vendo o Alfredo meio submerso, meio coberto de água e lama, ao mesmo tempo que pensava: ‘inda bem que já tinha mijado, senão…, e ria-se, e ria-se…, e peidava-se, e ria-se…, ai que ‘inda me dá uma coisa…
Toda a gente acorreu à margem de lagoa, rindo ruidosamente, em especial a criançada que conseguia, inesperadamente, um novo e bom motivo de diversão e que, inconscientemente, já sabiam ser para durar o resto da tarde e mesmo da noite, em casa, onde não faltariam referências ao acontecimento nem relatos do mesmo à vizinhança e amigos que não o presenciaram.
Alguns dos adultos já idealizavam o melhor relato que poderiam fazer aos colegas quando a segunda-feira voltassem ao trabalho.
-Eh pá, nem sabes o que aconteceu ontem; fui ...

(continua)

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publicado às 21:20

O PICK NICK, (1ª parte)

por Kok, em 10.11.15

Inicialmente os cágados emergiam de sob as nenúfares inspecionando a lagoa e as redondezas, mantendo as cabeças fixas, bocas entre-abertas e movendo preguiçosamente os olhos, não lhes escapando nada, nem moscas nem mosquitos que por ali voassem desprevenidamente, nem mesmo alguma libelinha que distraidamente pousasse por perto. Eram uns matreiros aqueles cágados.
Nem mesmo uma ou outra pedra que lhes fosse atirada os apanhava desprevenidos pois que mais rapidamente do que a pedra recolhiam as cabeças e desapareciam por largos momentos sob a superfície da água.
Pássaros e outros animais aproveitavam-se da lagoa para beberem ou para se refrescarem em banhos rápidos, numa total despreocupação quando não apareciam caçadores por perto.
Pelas margens, afastados o suficiente para não se incomodarem mutuamente, aconteciam os pick-nick’s onde cobertores improvisavam mesas e sobre os quais eram estendidas as grandes toalhas, normalmente aos quadrados mas também as havia às riscas, cheias de pasteis de bacalhau, arrozes de tomate e pimento, de cabidela, com coelho guizado e até solto para acompanharem carapaus fritos ou frango assado.
À sua volta adultos comendo e bebendo e também resmungando contra as formigas que cada vez apareciam em maior número e não lhes permitiam sossego, enquanto a garotada corria quer perseguindo pássaros, quer borboletas, quer quaisquer outros animais o que provocava gritos e discussões entre os adultos cada vez que alguma dessas correrias passava directamente sobre algum dos cobertores mesa.
Um pouco afastado, um casal de namorados entretinha-se sob uma frondosa árvore aproveitando a sua sombra.
Mais além um barrigudo resfolegava ruidosamente, descansando durante a digestão das pataniscas de bacalhau e da feijoada fortemente regadas com os copos de vinho dum garrafão que jazia, vazio, uns quantos centímetros afastado do cobertor-mesa onde dois carreiros de formigas se atarefavam afanosamente na limpeza das muitas migalhas e restos que por ali havia.
Vendo assim abandonadas as mesas, uns quantos pardais também se deixavam tentar e iam debicando aqui e ali, quer nas migalhas, quer no batalhão de formigas que ainda assim não desistiam dos seus carreiros, em constante actividade.
Junto a um arbusto um movimento acompanhado de um ruído como que de afastar de folhas, denunciava a presença de alguém; pouco depois surgia a cabeleira encaracolada e pintada de loiro de D.Dores, que com movimentos ondulados tentava repor no seu devido lugar as cuecas, a cinta e as calças azuis do fato-de-treino, estas com alguns espinhos agarrados e aquelas húmidas de restos do líquido despejado e que teimosamente acertou nos ténis de marca, onde as manchas eram igualmente reveladoras da acção praticada.
-Raio de ideia de fazer pick-nick’s que tu tens, Alfredo! Vem uma pessoa p’ráqui carregada com esta tralha toda, volta p’racasa outra vez carregada e o pior é que quem tem o trabalho todo sou eu! ‘Inda por cima saio daqui toda mijada e picada dos espinhos; fica sabendo que nunca mais cá venho!
-Grhumpf!, respondeu o Alfredo rodando a barriga para o outro lado e continuando a digestão na fresca sombra daquela bendita árvore, que nem reclamava nem dalí arredava pé.
Azar do caraças; então não é que a bendita árvore era um pinheiro!? Então não é que, talvez por influência da leve brisa, uma pinha se solta do seu galho e em alucinante mergulho vai acertar na cabeça do Alfredo, mal coberta por ralos e desgrenhados cabelos, penteado à tapete, deixando à mostra a sua luzidia careca, agora enfeitada por aquela enorme “pinhoada”?

(continua)

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publicado às 22:16

EM DIRECÇÃO À NASCENTE

por Kok, em 03.06.15

ilustração copiada de: www.scrapsdinamicos.com.br

I
Naquele ano o primeiro de janeiro calhou a uma quarta-feira de cinzas, precisamente no dia nove de fevereiro que por acaso foi num sábado.

II
Eram duas horas da tarde na pequena cidade de San Buenas Las Pebides quando o Gosma lá chegou carregando às costas uma saca esbraquiçada, marcada com algumas letras pretas onde ainda era possível ler quaisquer dígitos em arabaico. Olhando desconfiado para um Pasma de giro, aproximou-se com mansidão da montra de la tabaqueria e espreitando para o seu interior loubrigou, atravez do vidro, a Lambisgoia que comprava uns cigarrilhos amaricanos extra-longos.
Num relance “mordeu-a” toda: calmeirona, louraça, um belo e enorme par de marmelos que parecia estarem prestes a saltarem-lhe do peito para uma das prateleiras atrás do balcão, boas mocas e uma espetacular trazeira e, ainda, uma fina cintura a condizer; os farois eram granjolas a atirar p’ó azul e a boca, de lábios grossos, mesmo “à maneira”!!
O Gosma pasmou, completamente ensampado!!! (1)
Inadevertidamente abriu a mão da saca que, escorregando-lhe pelas costas abaixo foi espalmar-se no suelo com grande alarido de vidros partindo-se e porcelanas quebrando-se, assustando um rafeiro que por ali passava e que espontaneamente iniciou um ladramiento do caraças na direcção da saca como que a sublinhar o seu protesto por toda aquela quinquilharia quase lhe ter assentado nos costados.

(1) o mesmo que: embasbacado, atónito, paralisado pelo espanto, espantado

III
Mal refeito, o Gosma alçou da gambia e vá de assentar uma biqueirada no canídeo que se lançou em louca correria rua abaixo, a ganir que nem um desalmado, certamente a fazer queixinhas aos paizinhos que estavam fazendo compras nas cozinhas do Centro Comercial.

IV
Rindo alarvemente, o Gosma nem deu pela aproximação da Lambisgoia que sem dizer água vai lhe assentou uma bojarda no trombil; e tal foi ela que o Gosma dando um tombo foi acertar con la mona num marco do correio (que deixou cair umas quantas cartas: duas biscas e três valetes), após o que se estatelou no lagedo não sem que primeiro galgasse por sobre a saca de juta esbranquiçada cheia de cacos de quinquilharias.
V
Completamente aparvalhado com o sucedido, estava o Gosma esparramado no passeio olhando de perto aquelas duas lindas mocas da Lambisgoia, tão bem feitas e torneadas, que não resistiu a olhar para cima tentando vê-las até à raiz quando a Lambisgoia lhe grita: mira niño, se piensas que te escapas te engañas pués qué mismo allá donde te encuentras te aplicaré una sapateada en los tamales qué te quedarás berde…!

VI
Levantou-se de um salto o Gosma e ainda com o nariz sangrando tentou a simpatia de um sorriso que mais pareceu uma careta, evidenciando o lábio superior gretado e inchado e dando origem a uma estrondosa gargalhada de todos os que assistiam à cena.

VII
O Gosma escamou-se!

VIII
Apesar de tudo detestava que se rissem à sua custa, todavia como já tinha sido aviado e estava na dúvida se o ensaio tinha terminado ou se era só o intervalo, olhou sorrateiramente em redor até que topou fixo nos seus os olhos azuis, muito azuis, da Lambisgoia, tão azuis que lhe pareciam duas pérolas … azuis!
Quê estás mirando, enfezado, no me has visto aún bien? No tienes verguenza de abiqueirares los pobrecitos de los animales que caminan por las calles sin trabajo? Ahn? Ahn? Pira-te antes que te vuelva los ojos a las espaldas, desgraciado!!!
O Gosma cada vez mais encarquilhado repelava-se todo, tinha esgares e resmungava em surdina palavras que não se percebiam, tal era a termura dos seus lábios inchados e gretados.
Ixunãficáxim, percebia-se a custo.
Baixou-se repentinamente, agarrou na saca cheia dos cacos de quinquilharias e pondo-a novamente sobre os ombros no meio dum enorme barulho de cacos a entrechocarem-se, baldou-se apressado em direcção ao Pasma que do outro lado da calle assistia ao desenrolar dos acontecimentos.

IX
Desconfiado, o Pasma olhava enviezado para o Gosma sob a pala cor de laranja do seu boné verde-alface segurando na mão direita o casse-tête azul e vermelho e com o apito cor-de-assobio entre os lábios soprava estridentemente.
Calma, calma, pensava o Gosma enquanto atravessava a calle e dizia para si mesmo: isto não fica assim, isto não fica assim.

X
Subitamente e no meio de grande algazarra e buzinadelas chegou o Auto-bus cor de pêssego e ananaz; aberta la puerta com um fuerte Tchiii começou a despejar turistas velhos do hospício que ali vinham propositadamente para beber una copa, dois uéros e siete espadas, tudo por quatro paus.

XI
Pópó, disse o Auto-bus, todos para dentro antes que eu cierre la puerta. Entraram e se fueran a lo hospício.

XII
O Gosma aparvalhado e surpreso, continuava especado no meio de la calle, com a saca esbranquiçada ao ombro, assistindo a todo aquele sair e entrar de turistas velhos, enquanto a Lambisgoia caminhava calle arriba ondulando com firmeza o às-de-copas.

XIII
Largando as quinquilharias e a saca no meio da calle o Gosma galgou o passeio em duas passadas e de um só impulso emborcou-se no lajedo, tamanha foi a martelada do Pasma ao assentar-lhe na testa o azul-vermelho do casse-tête.
O Gosma acordou nu, sem saco nem quinquilharias, sem apito nem assobio, sentado no boné do Pasma que descia o rio numa prancha de surf, com risco ao meio e a vela tesa.
Chucorro! Gritava o Gosma em Tusco na esperança de que o rio fosse na Tusquia. Chucorro, que eu não sei nadar…
Cala-te aí oh gimbras, resmungou o boné; se não sabes nadar não te despisses.
E neste animado, conturbado, multifacetado, engasgado diálogo, lá seguiram rio abaixo em direcção à Nascente.

texto escrito em 2010

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publicado às 10:50

O FECHO DO SUTIÃ

por Kok, em 28.01.15

Sutien

Já a tinha visto por ali, umas vezes rodeada de gajos e gajas ruidosos, betos e "betas". Outras vezes só, encostada no canto do balcão beberricando lentamente margaritas, de olhar perdido pela sala, alheada dos temas musicais que os DJ's punham "no ar" acreditando estarem na preferência dos bailadores cujos movimentos quebradiços acompanhavam desordenadamente ritmos que, acredito, nem os ouviam.

Não era muito alta, talvez 1,65m, meio magra seja lá isto o que for mas é como eu a via, cabelo castanho escuro, pescoço longo, mamas de bom tamanho (mais uma vez é como eu a via), cintura marcada o suficiente para perceber que as ancas e os glúteos formavam uma harmoniosa área convidando à exploração. Claro que o que mais me chamou a atenção foi o rosto muito belo e onde cada elemento se tornava num prazer só de olhar; os olhos muito azuis contrastavam com as pestanas muito longas e negras (percebi depois que a culpa era do rimel) e as sobrancelhas absolutamente simétricas; o nariz, levemente arrebitado dava-lhe um adorável ar de  "menina marota"; os lábios (ai os lábios...), carnudos e perfeitamente desenhados impeliam-me a beijá-los... a beijá-los... a beijá-los eterna e consecutivamente.

Hoje decidi-me e, aproveitando o facto de ela estar só, avancei. Escostado ao balcão mesmo ao lado dela, pedi uma cerveja e olhando-a sedutoramente (pensei eu) disse-lhe:

-Olá, posso oferecer-te outra margarita?

Olhou-me surpresa e respondeu-me:

-Òh pá, deixa-te de merdas!

Desarmou-me. Fiquei assim, sem saber o que responder e (acredito) de boca aberta que nem peixe fora d'água.

O barman trouxe-me a cerveja, marcou no cartão para pagar à saída e, piscando-me um olho, foi-se. Senti estar fora de pé sem boia onde me agarrar e sem nenhum barco à vista.

De súbito uma gargalhada; só eu a ouvi mas tenho a certeza que foi uma gargalhada; fora ela a rir-se e olhando-me divertida ao mesmo tempo afagando-me o braço (no caso o direito) disse-me:

-Não sejas parvo pá; claro que quero outra margarita!

Foi um alívio; afinal apareceu o barco para me salvar. Falámos sobre coisas desinteressantes e de ideias ainda menos interessantes e, já no final da noite quando a madrugada era quase manhã, saimos juntos da "discô".

Foi aquele momento de: a tua casa ou a minha? E lá fomos, para uma delas, a dela!

Beijámo-nos com paixão, paixão essa que foi aumentando de intensidade a cada beijo. Fomo-nos despojando dos texteis que nos cobriam com a rapidez que podiamos e sabiamos, (nunca pensei ser tão difícil desabotoar uma camisa). Ela livrou-se dos sapatos e das meias meias (não cheguei a perceber o que era). Eu ajudei à saída do vestido e eis chegado o momento que eu mais temia: o sutien! O fecho do sutiã é o meu trauma; nunca percebi como aquela geringonça funciona; todavia e decidido desta vez a ultrapassar a coisa, abracei-a e tateando lá fui ao sítio, puxei e puxei, torci o mais que pude (aquilo é tudo elástico), até que ela me disse:

-O fecho é na frente pá!

 Larguei o raio da coisa que lhe estalou nas costas;

-Porra pá, isso doeu-me! Fod...

Não chegou a acabar a frase porque entrou na sala um gajo, bem aviado de músculos, que disse:

-Então querida, que raio de merda é esta? Já não se pode dormir sossegado?

-Ò querido desculpa; vai-te deitar que eu já vou! E olhando-me com ar reprovador disse:

-Vês o que fizeste? Acordaste o meu marido e assim nada feito; vai-te embora! Pira-te!!

E eu saí. Confuso? Evidentemente que fiquei confuso. Confuso e assustado que o gajo tinha músculos que se fartava. Estava a vestir-me na escada (sem as peúgas que não encontrei), abotoando a camisa, quando uma vizinha dela chegando "da noite" me olhou de alto a baixo (lascivamente, acreditei eu) e me perguntou:

-Olá... então está perdido? Hummm... Não me quer fazer companhia... num breakfast in bed?

Pensei: bem isto se calhar até pode acabar bem.

-Querer eu quero, até calhava bem, mas diga-me: usa sutiã?

-Como?, Se uso sutien?, Claro que sim...

-Então não quero!

E, continuando com a camisa por abotoar e peúgas por encontrar, saí porta fora; porque raio é que os sutiens têm fechos?

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publicado às 00:01

É DO CALOR...

por Kok, em 01.01.15

A culpa é do calor!

Deste calor que não me dá descanso, nem de dia, nem de noite!

A culpa do calor!

Era um sábado quente e húmido; um sábado quente com um calor húmido e pegajoso. Pela manhã, bem cedo, já se sentia aquela atmosfera sufocante.

Que chatice!, pensei quando acordei, não devido ao calor mas simplesmente por ter acordado; podia perfeitamente ter continuado dormindo pois a minha contribuição para que o mundo continuasse a girar é completamente irrelevante. Mas o que é certo é que acordei. E o facto de ter acordado depois das dez da noite não minimizou a chatice. E, chateado por chateado, levantei-me, vesti a primeira t-shirt que agarrei e os jeans pendurados de véspera na cadeira de verga que era uma espécie de roupeiro, e sai de casa.

Mas não fui muito longe.

Voltei a entrar para calçar os ténis cuja cor e os cordões de aperto se perderam  nos vários anos de uso.

Estava irritado, chateado, com vontade de bater em alguém.

Carros passavam por mim, apressados, como se estivessem atrasados para chegar onde quer que quisessem chegar, e faziam-no em direcções opostas, para lá e para cá, com buzinadelas e gritos insultuosos abrangendo os pais, as mães e toda a restante família dos que pela frente lhes surgiam.

Entrei num bar e lembro-me de ter bebido uma cerveja e depois outra, e depois ainda outra.

Sentado ao balcão de outro bar bebia uns whiskies e sem saber como dei por mim a ouvir a história de vida de uma gaja, completamente desconhecida para mim, que choramingando contava ter sido abandonada pelo namorado quando ele soube que uma prima (dele) a seduzira mas que ela até gostava dela (da tal prima dele), e que agora já não sabia de quem gostava, e que…

Saltei fora daquele enredo antes que fosse tarde e caminhei horas por ruas, becos e travessas, sem destino; ou então o destino seria esse mesmo, de caminhar somente por caminhar, até que os vapores dos diversos álcoois, se desvanecessem.

O calor húmido, pegajoso, abafado, envolvia-me até aos ossos.

A “sede” atormentava-me a cada passo e a cada passo que dava crescia aquele desejo de bater; de bater em alguém; de bater em qualquer coisa.

Em cada viela a porta de um bar abria-se “convidando-me para mais uma”.

E eu aceitava-a!

Aproximava-se o fim da noite e os bêbados deitados nos passeios, ou caminhando aos tombos, aguardavam o amanhecer.

Na noite, mal iluminada por candeeiros altos cuja luz mortiça de nada servia, vi-os caminhando na minha direcção. Eram três. Percebi que o da frente era o “macho” dominante enquanto que os outros dois não passavam de reverentes servos, qual côrte idolatrando o seu “deus”!

O passeio era estreito e alguém tinha que se desviar. Continuei caminhando em direcção ao trio até que ficámos frente a frente, cada um de nós esperando que o outro se desviasse.

Não o fiz. Eles também não. Avançámos!

O “macho” colocou-me a mão no peito empurrando-me.

Agarrei-lhe no pulso e torci-o forçando-o para baixo até ele estar quase ajoelhado à minha frente, golpeei-o raivosamente na cabeça com a minha outra mão e, quando ele já estava estendido no chão, pontapeei-o selvaticamente na cabeça, no peito, em todo o lado que entendi pontapear.

Os “dois servos” desapareceram, “evaporaram-se”, sumiram-se…

Continuei caminhando deixando o “macho”, escorrendo sangue, prostrado meio no passeio meio na rua, gemendo.

É este tempo quente, húmido, pegajoso e sufocante que “me obriga” a fazer coisas más.

Por isso eu sabia que hoje “tinha” mesmo que bater em alguém!

E continuar caminhando.

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publicado às 11:12

NUMA MANHÃ de CHUVA

por Kok, em 02.04.14

-Sim sim, já estou na rua… Não, primeiro vou beber um café e ler o jornal… Atrasados? Mas atrasados porquê? Não é só de tarde? … Isso não me interessa; eu tenho… Ok então vai tu! Eu não vou. O gajo disse-me que a cena tinha sido alterada que só de tarde é que eu gravava. … Tábem, tábem…  adeus!

Desliguei e guardei o telemóvel. Duas passadas depois começou e vibrar dentro do bolso porque como de costume não bloqueei as teclas e ele “re-ligou-se” com ela que irritada me gritou:

-Úkékekéres agora?

-Nada! Xau!

Voltei a desligar e a desligá-lo mesmo, evitando assim que me chateassem. Porque o meu momento de beber o café e ler o jornal, à mesa da pastelaria da minha rua, é único; quase sagrado. E o cumprimentar a Idalina também tem a sua importância!

São agora quase 10 horas. O trânsito movimenta-se lento e barulhento. Andando em várias direcções, as pessoas passam aceleradas para mais um dia de trabalho, ou quem sabe para procurá-lo. A caminho da pastelaria vou observando o que à minha volta se passa e, sem surpresa, percebo que estou só no meio da muita gente. Admito até que sou transparente para quem por mim se cruza.

Não é uma sensação agradável. Nem desagradável. Aliás, nem sequer uma sensação. É uma constatação!

No passeio central da avenida suburbana onde “dormem” automóveis de variadas marcas e modelos, passeia-se um cão de raça indefinida, pintalgado de preto e amarelo, que vai cheirando todas as árvores e pneus que encontra e neles depositando algumas gotas de urina para que “quem” a seguir vier saiba que ele passou por ali. Afinal, para ele as árvores e os pneus dos carros funcionam como aquelas revistas ditas de cor-de-rosa vocacionadas para satisfazer curiosidades voyeuristas.

A pastelaria tem poucas mesas ocupadas ao contrário do balcão onde não há espaço para ninguém. Peço um café duplo, um copo de água e um folhado misto.

-Quer o folhado aquecido?

Como não tenho pressa, confirmo: Sim, por favor.

Sento-me junto da montra frigorífica onde bolos feitos de madrugada repousam nas prateleiras de vidro, exibindo um colorido de cremes e de outros tipos de peganhices para satisfação de gulosos para além de, visualmente, comporem uma qualquer mesa comemorativa numa festividade doméstica.

Encostada ao balcão ocupando o espaço do “serviço de mesas” está a D. Arménia, (uma vizinha muito larga e bastante pesada cuja simpatia é menor que a de um semáforo).

-Óh coisa, faz aí uma torrada com bastante manteiga e dá-me um galão escuro e um cruássã com recheio de chocolate.

-Sim D. Arménia, vou já fazer, responde a  coisa.

Começa a chover.

São pingos leves, dispersos, que vão progressivamente engrossando e aumentando a sua cadência até se assemelhar a um dilúvio, “expulsando ” da rua para o interior de cafés, pastelarias e outros, tudo o que é ser vivo: as pessoas e o tal cão preto e amarelo que de orelhas erguidas e o rabo entre as pernas veio deitar-se junto da mesa onde eu esperava pelo café duplo, o copo com água e o folhado misto, aquecido. Através da montra vejo passar um miúdo correndo, encharcado pela chuva, e logo depois uma mulher também encharcada apesar de empunhar um chapéu de chuva de cor vermelha mas que de pouco lhe serve; aparentemente são mais as varetas partidas do que as inteiras.

Também ela corre chamando o miúdo com voz estridente:

-Òh Francisquiiiiiinho, òh Francisquiiiiiinho, Òh Francis… deixei de a ouvir!

Momentos depois voltam a passar correndo em sentido contrário, o miúdo e a mulher, ambos mais encharcados de chuva e sem o tal chapéu de chuva vermelho.

Chega à mesa a Idalina, a empregada da pastelaria cujas generosas mamas “espreitam” parcialmente na blusa preta meio desabotoada, sem receio da chuva que cai lá fora, e que despertam o meu olhar mais do que o café duplo, o copo de água e o folhado misto aquecido e cortado ao meio, para me facilitar.

Demoro o olhar nas mamas tentando imaginar como será contemplá-las por inteiro; ela sabe por onde corre o meu pensamento. Sorri para mim, e debruçando-se –diria que sem necessidade- coloca sobre a mesa o meu pequeno almoço dizendo:

-O folhado misto está bem quentinho Sr. Peres, espero que goste. E bom proveito!

-Obrigado Idalina.

Olhando-a enquanto voltava para o balcão ondulando as roliças ancas como se fosse um poema de inspirado poeta, sabia que ela não se referiu ao café nem ao folhado misto.

-Olha lá ó coisa, este galão está muito escuro; e as torradas, demoram muito?

-Estão quase D. Arménia, responde a coisa levando o galão para clarear.

Voltando à mesa vejo o cão que, sentado e com o focinho à altura do tampo da mesa olhava ora para mim, ora para o folhado misto. Não era bem uma súplica mas…

Dispus-me a partilhar o folhado mas não tive tempo porque entraram na pastelaria ainda encharcados, o miúdo e a mulher.

O cão volta-se e corre para junto do miúdo, que o abraça.

-Mãe, mãe, olha onde é que ele estava. Eu não te disse mãe?! Eu não te disse?

A mãe, cujos cabelos pingavam ensopados de tanta chuva, não parecia ouvi-lo. Só quer voltar para casa, para um reconfortante duche bem quente. E pensa: se não fosse por ti pouco me importaria que o cão tivesse desaparecido. Estou tão farta do cão...

-Olha lá, então não vês que o galão está muito claro?! E as torradas? (não sabem fazer nada que tenha jeito; mal empregadas, resmunga a D. Arménia).

-Estão aqui D. Arménia, estão aqui, responde a coisa enquanto deita uns pingos de café no sacana do galão para que escureça sem que fique escuro. Coisa sofre…

O meu telemóvel vibra. É ela. Atendo? Não atendo?

Distraído, pressiono a tecla errada e desligo a chamada. Mas ela volta à carga.

-Estou!

-Então, desligaste-me a chamada? Onde é que estás?

-Foi sem querer; enganei-me na tecla.

-Sim, sim, pois… onde é que estás?

-Na pastelaria; estou a comer o pequeno almoço e…

-Aaaah! Já viste a Idalina?

-Já, porquê?

-Era só para saber. Agora que a viste já podes vir para os estúdios para começarmos a gravar? E despacha-te porque as cenas da tarde passaram para esta manhã.

-Então e a chuva?

-O que é que tem? Se estás com medo de te afogar pede à Idalina que te empreste as bóias. É a única maneira que tens de lhe pores as mãos!

E rindo alarvemente desligou o telefonema.

Caminho por entre as mesas para pagar no balcão o pequeno almoço e vejo a coisa recolhendo das mesas as loiças utilizadas em espasmos de risos mal contidos.

Interrogo-a com o olhar e ela responde-me com um arquear de sobrancelhas apontando com o queixo na direcção do balcão. Olhos nos olhos sorrimo-nos cumplices ocorrendo-nos ser o gesto canino um acto de  solidariedade para com a Sandra (a coisa).

Porque, junto ao balcão, o cão do Francisquinho de pata alçada mijava nas botas de cano alto da D. Arménia.

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publicado às 15:15

UM AZAR DO CARAÇAS.

por Kok, em 13.02.14

Baterem à porta quando eu estava no banho. Vou abrir, não vou...

Estive mesmo para não ir pois não me deu jeito nenhum, mas dada a insistência lá me resolvi fechar as águas, a quente e a fria, enrolar à cintura uma toalha e mesmo descalço arriscando um escorreganço nos mosaicos, ir ver quem era e o que queria tão cedo na manhã.

Ainda a porta não estava bem aberta, o que me impediu de ver quem era, e apanhei com um balázio mesmo no meio da testa que me privou de tudo, nomeadamente da existência o que também não me deu jeito nenhum atendendo a que tinha duas reuniões marcadas mais um almoço com um fornecedor antes de iniciar as férias marcadas e pagas com antecedência para aproveitar a campanha lacoste low cost da agência de viagens onde trabalha a Vanessa, um arranjinho que o meu vizinho que é gerente dum banco e tem um apartamento cá no prédio, tem fora do casamento.

Para além do susto que apanhei, pois um tiro é um tiro e faz um cagaçal do caraças, é claro fiquei chateado. Evidentemente!

Uma pessoa faz planos, tem tudo organizado e pago, com o bilhete levantado de véspera para evitar esquecimentos e atrasos, e afinal não serve de nada porque ali estava eu esparramado no lajedo, com a tampa esburacada e meio levantada deixando à mostra parte da mioleira que me foi útil algumas vezes (e outras nem tanto), e cuja serventia é agora zero.

E mais, como foi a primeira vez que me mataram não sabia como é que se cai quando nos dão um tiro e por isso cai à balda, ficando com uma perna dobrada debaixo do tronco e a outra esticada apontando para a parede do hall com o pé metido no balde dos chapéus-de-chuva que eu, ao cair e dada a minha inexperiência, derrubei com a cabeça.

Ouviam-se ruídos de portas a bater e dos passos de pessoas correndo escadas abaixo, tudo aos gritos de:

-ACUDAM!

-SOCORRO!

-CHAMEM A POLÍCIA!

-O QUE É QUE SE PASSA?

-Aiiiiiii F#*@-SE, TORCI UM PÉ! Aiiiiiiii Aiiiiiiiiii Aiiiiiiiiii Aiiiiiiiiii

-Calma calma, isto não é nada; até parece que morreu alguém.

Gradualmente o sossego. Não sei quanto tempo passou até nas escadas do prédio silencioso e silenciado começar a ouvir um caminhar vagaroso, parecendo que quem lá vinha viesse com receio mas sem saber de quê. Demorou um bocado, certamente porque foi vendo os andares anteriores inferiores, até que parando frente à minha porta, abriu-a sem pressas e viu-me!

Era um polícia; via-se bem que era um novato, e ao ver-me assim caído e com tudo à mostra, o cérebro e o resto já que a toalha se soltara, embranqueceu, recuou e  quase desmaiando ainda teve forças para comunicar com a esquadra, para me virem buscar. Será que vou ser preso?, pensei eu. Se calhar um gajo para levar um tiro tem que ter uma licença para estar dentro da legalidade. E o facto de um gajo não saber quando é que isso acontece poderá ser uma atenuante? E se for assim do tipo das cartas de condução que têm prazo e depois é preciso renovar?

Se for assim tou lixado.

Demoraram algumas horas até que apareceram uns gajos que nunca tinha visto e um deles, médico pelo que percebi, atestou que eu estava morto! Olha a novidade, pensei eu; se tivesses telefonado eu podia ter-te poupado o trabalho.

Ataram-me, embrulharam-me e enquanto me carregavam escadas abaixo ouvi o meu vizinho gerente do banco a falar com a Vanessa dizendo-lhe baixinho:

-Chiça Vanessa, já viste a nossa sorte?

-Podes crer querido, podes crer! Se não fosse todo este barulho ainda estávamos na caminha…

-Ainda bem que o teu marido se enganou no andar…

Então eu morri por engano?

Quer dizer: eles andam enrolados e eu é que “pago”? e sem uso-fruto!!!

Admite-se que um gajo saiba que a mulher anda a “enfeitá-lo” e não saiba a morada correcta do amante da mulher! Repito: não se admite uma coisa destas.

Tive mesmo um azar do caraças!

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publicado às 21:15


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